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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Quadrilha - Chico Buarque e Francis Hime


Esses dias eu estava em casa tocando a música Quadrilha, de Chico Buarque e Francis Hime, e me atentei para o fato de que muitos dos meus amigos simplesmente desconhecem essa canção. Normal. Quadrilha é uma canção composta para o filme “A Noiva da Cidade”. Como não existe registro na discografia regular de Chico Buarque, muita gente desconhece. Decidi procurar o vídeo. Imperdível. Que saudade dos arranjos do Francis Hime nos discos do Chico. Assisti repetidas vezes. Para quem não conhece, segue aí abaixo. 


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Morreu Mário, Que Te Pegou Atrás do Armário


Informo aqui a morte de Mário. É isso mesmo que você leu. Mário, que pegou uma legião de inocentes atrás do armário, foi obrigado à aposentadoria.
O inimaginável se deu. Mário, o tarado incorrigível, não se cansou do centenário móvel ou dos prazeres desfrutados atrás do mesmo, apenas percebeu, tardiamente, a impossibilidade de prosseguir com sua arte.
O fato é que os antigos armários, onde Mario trabalhava com insaciável e incansável competência, foram devorados por cupins celibatários ou por pudico mofo. Os armários de hoje são respeitosamente embutidos e já não permitem mais o trabalho de um profissional da sacanagem como Mário. Não existe mais o “atrás do armário”.
Os armários modernos, provavelmente insuflados por ratazanas moralistas, grudaram-se às paredes em nome da retidão e do recato. As próximas gerações terão que arranjar outro colaborador. Mário, por ironia, foi pego justamente quando saía de seu esconderijo. Aquele mesmo esconderijo para onde, outrora, em nossa infância e adolescência, endereçamos tantos amigos inocentes e desavisados.
Milhões de seguidores por todo o mundo choram neste momento o sumiço de Mário. Alguns por não poderem mais mandar vítimas ao carrasco, outros, menos confessos, por guardarem boas recordações de quando foram enviados para trás do erótico guarda-roupa.
Adeus, Mário! Mário? Mas que Mário?


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Bombay Masala - NY


Solicito ao garçom que me traga um Chicken Vindaloo. Ele me olha desconfiado e com um sorriso malicioso no rosto. Sabe que é o tempero mais forte da casa. Deve pensar: - "Esse brasileiro não perde por esperar." Quando chega a comida ele permanece me olhando com o mesmo sorriso. Aos poucos vai se decepcionando com minha cara de satisfação. Não sou marinheiro de primeira viagem nem vim ao restaurante por um acaso.
Situado na 49 Street com a 7ª Avenida, o Bombay Masala é o restaurante indiano mais antigo dos Estados Unidos. Para ser mais preciso, funciona neste local desde 1917. Nada de luxo, movimento ou ostentação. É um ambiente calmo, bastante frequentado por indianos e ingleses. Creio que isso já é motivo suficiente para confiar na originalidade dos pratos. Descobri por acaso e, desde então, sempre que vou a Nova York, vou ao Bombay Masala. Se eu ficar um mês na cidade, sou capaz de ir quinze, vinte vezes ao restaurante, ou seja, boa parte dos dias.
Se você estiver em New York e decidir ir ao Bombay Masala, não se assuste com algum papel colado no vidro. A vigilância sanitária americana tem o estranho hábito de notificar o restaurante. Tem sempre um aviso de que algo não está dentro das normas. Acredito que é mais um problema dos fiscais americanos que dos indianos. Se o restaurante é um original da Índia, possivelmente aquilo que eles consideram critérios de limpeza seja um pouco diferente do que os americanos esperam encontrar. O que posso dizer é que fui lá dezenas de vezes e jamais passei mal.
Mas creio que esse é um texto escrito para quem, como eu, gosta de comida indiana, de pimenta e de temperos fortes. Se você tem medo, não se arrisque. De minha parte, no quesito limpeza de restaurantes, procuro me pautar pelo ditado "Quem procura acha!". Por isso, não procuro nunca. E assim, eu e inúmeros indianos e ingleses, que sempre estão por lá, vamos nos satisfazendo em maravilhosos almoços e jantares no Bombay Masala.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Pássaro da Desilusão


Ivanildo Garrincha e Osias Canuto

Ivaniiildo!!! - gritou o menino enquanto amarrava o calango caçador de insetos com o sol. - Não vamos nadar que o rio tá cansado de hoje. Chegou ontem de longe e vai para amanhã mais longe ainda!
Ivanildo não ouvia direito porque tinha um ouvido moco de tanta sujeira. As abelhas faziam ciência em seu ouvido.
O menino correu atrás do amigo e puxou-o pelo braço antes que mergulhasse. Tinha pressa. Foram vender insetos na feira da cidade. Tinha de todo o tipo. Os melhores eles não vendiam, comiam para ficarem doutores na desutilidade das coisas. 
Tinha gente que comprava inseto para fazer remédio, para rezar ou bruxar, para guardar na caixinha e para fazer barulho na casa. Com o dinheiro dos insetos, Ivanildo e o menino compravam bolas de gude para afrontar os outros garotos, e também compravam camundongos e minhocas para alimentar Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas eles não sabiam o que era isso. Dona Guiomar Coruja era assim chamada porque após comer uma dessas aves, parou de falar e começou a piar.
Ivanildo tinha dois dedos com unha grande para cavar a terra e procurar bicho escondido. O menino tinha três unhas grandes para tocar violão e fazer a noite dormir mais rápido ou o dia nascer mais cedo. Também fazia a tarde cair mais triste ou mais alegre, dependendo do de dentro dele mesmo.
Um dia o menino tocou o violão e Dona Guiomar Coruja piou uma música muito bonita e Ivanildo batucou o bongô de pele de calango e couro de sapo. Ficou tão lindo que a lua ficou parada dois dias e o sol não veio e a cidade ficou desesperada e mandaram prender os três no hospício. Ficaram presos uma semana cantando a mesma música e, dessa vez, foi o sol que não desapareceu. Tiveram que soltá-los para que a cidade pudesse ver a noite novamente, e todos pudessem dormir, namorar, contar estrelas e fazer todas as cosias que só se faz melhor quando tem escuridão.
O menino ficava tanto tempo tocando violão que nasceram uns pássaros azuis dentro do pensamento dele, mas só eram vistos por Ivanildo e dona Guiomar Coruja. Ele tinha muitas idéias boas, mas os pássaros azuis cagavam nas idéias dele e estragavam todas elas. De tantas idéias estragadas teve a idéia de fazer uma música para transformar qualquer coisa em outra coisa diferente da coisa originária: gente em bicho, tristeza em gente, idéia em bicho, nada em gente..... Deu certo. Fizeram muitas transformações e começaram a ganhar bastante dinheiro. Mas achavam o dinheiro de muita desutilidade e transformavam tudo em ratazanas, bolas de gude, estilingue, violão e outras coisas melhores.
Certo dia, o menino e Ivanildo estavam caçando o pássaro da desilusão quando viram um enorme castelo surgido de uma hora para outra no meio da floresta. Entraram e encontraram um rei jovem e triste. O rei lhes explicou que o pássaro que eles estavam caçando era muito perigoso. Contou que a rainha saiu para andar na floresta e viu um pássaro de grande beleza que parecia triste e calado. Quando ela se aproximou o pássaro começou a cantar e ela ficou enfeitiçada pelo canto. O canto era muito bonito e muito triste. Neste momento a rainha foi tomada de enorme desilusão e deixou de acreditar na vida e no amor que sentia pelo rei. Ivanildo e o menino explicaram que, neste caso, a melhor coisa era chamar Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas eles não sabiam o que era isso. O rei, então, mandou que um de seus súditos fosse à cidade buscar Dona Guiomar Coruja. Quando ela chegou, começou a piar e Ivanildo traduziu para o rei o que ela estava piando. Explicou que a única maneira de resolver o feitiço era o menino capturar o pássaro da desilusão em sua cabeça e cantar uma música para a rainha triste. O rei pediu que eles voltassem até a floresta em busca do pássaro da desilusão. Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas o menino e Ivanildo não sabiam o que era isso, impôs uma condição: para que ficasse claro de que se tratava de um caso de amor verdadeiro, o rei teria que abrir mão de todo seu reino, passando sua coroa para o homem mais humilde do local. O rei ficou surpreso e assustado com a ciência da proposta, mas achou que havia nela enorme coerência, e aceitou. Acordo firmado, os três partiram para a floresta.
Caminharam quase um dia inteiro pela mata até encontrar o pássaro da desilusão. Ivanildo, armado de estilingue, acertou o bicho antes que ele começasse a cantar. Depois o segurou ferido e o menino tocou a música de transformar qualquer coisa numa outra coisa diferente da primeira coisa, e transformou o pássaro da desilusão num pássaro azul igual aos de dentro dele mesmo. Quando retornaram ao castelo já era noite e o rei ainda os esperava acordado e ansioso. Pediu que trouxessem a rainha triste a fim de que ouvisse o menino cantar. Dona Guiomar Coruja, Ivanildo e o menino ficaram muito impressionados com a desbeleza da rainha. Mas sabiam que o amor tinha dessas coisas. Se o rei gostava dela, para eles era o bastante. Não foi sem dificuldades que o rei a convenceu a ouvir a música. Sem muita delonga o menino pegou o violão e tocou uma canção hemorrágica vinda do secreto das veias, arrancada de um rio de lama, de sangue e de vida. Os pássaros azuis do de dentro dele mesmo ficaram agitados a ponto de todos poderem vê-los. Quando terminou, depois de um minuto de silêncio e expectativa, a rainha correu direto para os braços do rei. Os dois partiram sem muita explicação, deixando o castelo, o reino e tudo o mais sem importância para quem quisesse.
O menino estava muito cansado. Dona Guiomar Coruja e Ivanildo ajudaram-no a levantar-se e foram os três de volta para casa. Os pássaros azuis do de dentro dele mesmo cagaram todo o castelo e na cabeça de todas as pessoas. 
Ivanildo abriu os olhos. Percebeu que toda essa narrativa foi só uma coisa estranha que aconteceu na cabeça dele enquanto dormia durante o descanso da caçada. Esqueceu momentaneamente o pássaro da desilusão e chamou o menino para irem jogar bola de gude. Porque menino muda de uma coisa para outra e de outra para uma e lembra e esquece muito rápido.
- Ivaniiildo!!! gritou o menino enquanto amarrava o calango caçador de insetos com o sol. - Vamos embora que tem muito movimento na cidade!
Ivanildo não ouvia direito porque tinha um ouvido moco de tanta sujeira. As abelhas faziam ciência em seu ouvido. O menino correu atrás do amigo e puxou-o pelo braço antes que ele atirasse com o estilingue no pássaro da desilusão. Tinha pressa. Foram ver o circo que estava chegando à cidade. Mas isso é outra história....
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Lanchinho

Num tempo há muito perdido, os amigos decidiram que a música que faziam deveria chegar aos ouvidos de seus iguais. Totalmente de acordo com a alma vadia dos três rapazes, o lugar onde tocariam teria que acomodar, com o necessário respeito, todo tipo de vagabundo e meliante. Lanchinho, esse era o bar. Um punhado de bêbados, mendigos, ovos de codorna, coxinhas, torresmo, moscas, ratos e baratas. O paraíso não se constrói com luxo, mas com a simplicidade do absurdo. E a qualidade do som não tardou a atrair o público. Gente rica, gente pobre, gente estranha, gente louca e gente gente. Regadas a muita cachaça, Chico Buarque, Aldir Blanc, João Bosco e tantos outros, as noites de quinta no Lanchinho alcançaram o paraíso. Mas era muita energia descontrolada para um lugar tão humilde, e o pequeno bar não suportou tamanha loucura. Obrigado Newton Guimarães, Garrincha, Menino da Papuda, Igor, Aroeira e todos os demais passageiros do absurdo. O Lanchinho é parte inesquecível das minhas memórias do subterrâneo.



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A Lógica Cruel dos Segredos

As Comadres - Diego Rivera
O segredo é o estágio embrionário da fofoca. É o dia anterior ao escândalo tornado público.
Posso te contar um segredo?
– Não. 
– Quê?
– Não. Não pode. Não gosto quando você me conta segredos porque não posso contar a ninguém.
– E como você acha que deveria ser? Se é um segredo, não deve ser contado.
– Se é assim, por que você está me contando? Então não conte, e aí de fato será um segredo. Veja: ninguém conta segredo sobre coisas sem importância. Um bom segredo versa sempre sobre coisas interessantes, dessas que deveriam estar na capa de uma revista de fofocas. E você quer que eu fique calada? Que graça tem saber uma coisa escandalosa, ou muito grave, e manter silêncio? Não aguento. É muito chato isso. No mais, se você mesmo não consegue manter silêncio, por que me pede que mantenha?
– Você tem razão. Então vamos fazer assim: eu te conto e você só conta para uma pessoa, certo? 
– Certo. 
– Então, vou contar. Mas lembre-se: é segredo!
– Conta logo!!!

A vida é realmente bela!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Chico Buarque dos Desencontros

- Alô? - “A sua lembrança me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal.....” - Quem tá falando? - “Mas só sei dizer um verso banal. Fala em você, canta você, é sempre igual...”
Houve uma época em que os telefones sabiam guardar segredos. Não havia bina ou celulares, e uma mulher podia receber ligações apaixonadas de um desconhecido. Hoje, os telefones odeiam os amores secretos. São insuportavelmente indiscretos e mal amados. Naquela época tínhamos a cumplicidade da telefonia. Éramos quatro ou cinco amigos. Fazíamos dezenas de ligações, e em todas elas eu tocava sempre a mesma música. Jamais alguma das mulheres desligou. Todas ouviam até o fim a canção Desencontro, de Chico Buarque.
Cada um de nós tinha direito a escolher uma mulher para quem ligar. Minha função era tocar e cantar. Os outros escolhiam as mulheres, ligavam e ficavam na torcida para que elas não desligassem antes do fim da canção. A curiosidade feminina não lhes permitia desligar. A maior parte delas ouvia no mais absoluto silêncio. Algumas poucas não conseguiam ouvir até o fim sem perguntar várias vezes quem era. - Alô? - “Sobrou desse nosso desencontro um conto de amor sem ponto final...” - Quem tá falando? - “Retrato sem cor jogado aos meus pés...” - Faaala!! - “E saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis...” De nada adiantava perguntar. Não obtinham nada além da canção. No final apenas desligávamos. Era verdadeiramente lindo. A loucura era tanta que, quando não tínhamos mulheres específicas para quem ligar, simplesmente abríamos a lista telefônica e escolhíamos um nome feminino qualquer. Neste caso, inclusive, eu podia estar cantando para alguma senhora com idade para ser minha avó, ou mesmo para um travesti: - Alô? - “Não sei se você ainda é a mesma...” - Não, não, eu mudei bastante, você não me reconheceria mais. Ou então, para algum pai descontrolado de ciúmes: - Alô? - “Ou se cortou os cabelos, rasgou o que é meu...” - Vou te rasgar é de faca, seu vagabundo! Absurdos a parte, assim corriam nossas noites, entre desencontros, whisky, telefonemas e o violão.
Fico agora imaginando o que se passou na cabeça de cada uma das mulheres para quem ligamos. Considerando que todas ouviram até o fim, suponho que tenham gostado. Sendo assim, quantas devem ter perdido a noite imaginando quem seria o apaixonado? Quantas se viram subitamente recuperadas de alguma desilusão amorosa? E quantas não devem ter caído doente com febre e tremores? Não sei a quantas delas fizemos bem ou a quantas fizemos mal. Não sei se Chico Buarque e seu Desencontro funcionariam nos tempos atuais. Não sei de nada. Sei apenas que cantei milhões de vezes Desencontro sem ter a mínima idéia de quem estava do outro lado da linha. E repito: nenhuma jamais desligou. - Quem tá falando? Por favor, quem tá falando? - “ Se ainda tem saudades e sofre como eu, ou tudo já passou, já tem um novo amor, já me esqueceu.”
A vida é realmente bela!

                                           


                                           

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Canalha


Canalha!!! E não era. O que aconteceu de fato foi que a vizinha, moça de caráter a um passo da honestidade, solicitou ajuda no reparo da pia do banheiro. Ele, um banana, acudiu. Acudiu e foi pego pelo marido, sem camisa, no banheiro todo molhado. Afeito às armas de fogo e ao escândalo, o marido cuidou de divulgar a versão na qual teria enxotado o banana sob ameaça de morte.
Canalha!!! O insulto soprou-lhe o rosto como o mais desejado dos afagos. Na rua os amigos o cumprimentavam com inveja. Sorria um sorriso de canto de boca, típico dos canalhas. Chegou a pensar em andar com um palito entre os dentes, direito que só os canalhas possuem. Ele estava exultante. Pela primeira vez, em quase vinte anos de casamento, era chamado de canalha. Sorria numa felicidade quase hemorrágica. A vida toda tinha sido visto e tratado como um banana e, agora, enfim, era reconhecido como um canalha.
Ninguém sabia, mas ele estava adorando a alcunha e desde muito antes se imaginara, em segredo, canalha. Chegou mesmo a comprar um par de sapatos de couro com estampa de crocodilo. Estampa de crocodilo. Como todos sabemos, um sujeito que usa sapatos de couro com estampa de crocodilo é canalha. Descobriu também que o desvelar de sua canalhice passara a lhe render crédito com as mulheres. Elas adoravam o canalha. Passou a ser cobiçado nas rodas de bares, nas festas e onde mais pudesse desfiar suas aventuras, que as contava, fantasiava e inventava com toda força de sua imaginação. Assim, transmutou-se de corpo e alma no novo personagem. Com isso, salvou o casamento e ainda conseguiu a admiração pública.
Deu-se, porém, que o marido da vizinha quase honesta ficou sabendo de indivíduo que freqüentava seu lar enquanto ele estava fora. Óbvio, todas as línguas, suspeitas e certezas deram conta que o dito cujo era o banana, recém alçado a canalha. Não teve dúvidas o marido ultrajado, matou o canalha; neste caso, o banana. Algo saíra errado e denunciara o segredo do morto. Faltou-lhe uma das principais características do canalha: Canalhas não são afeitos a demonstrações de coragem. Tem forte instinto de preservação e imaginam sempre que devem sobreviver para prosseguir com a canalhice. Assim, ele não poderia ter morrido. Se canalha fosse, teria derramado lágrimas de arrependimento com soluços de covardia, teria se ajoelhado e pedido desculpas ao marido, ou mesmo se escondido no banheiro. Um verdadeiro canalha sempre se esconde no banheiro e deixa que seu resfolegar apavorado saia por baixo da porta e acalme os ímpetos do matador. Não fez nada disso. Foi um banana. Ficou olhando com cara de banana para o marido, esperando o tiro.
Desmascarado, ninguém foi ao enterro. O falso canalha era agora odiado por destruir as fantasias que ele mesmo colocou na cabeça de amigos e mulheres. Nem a viúva, que desta vez se sentiu traída, foi dar-lhe o último adeus. Afinal, ela era a mulher de um canalha e, agora, era apenas a viúva de um banana. Foi enterrado sob a chuva monótona de uma tarde sem graça. Um dos coveiros comentou antes de lacrar o caixão: “Que patifaria! Sapatos de couro com estampa de crocodilo! Canalha!!!”
A vida é realmente bela!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Destruição Crepuscular


Velho Crepuscular - Salvador Dalí


Na tarde empoeirada
vago antialérgico pela cidade asfaltada.

Nada se move.
Nenhum sinal de embrutecimento.
Nenhum espasmo de poesia.

Só a tua lembrança,
já a caminho do esquecimento,
me doe nessa analgesia.

Derradeira gota de ilusão
nas veias mornas do fim do dia.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Trapacista Degolante



Durante boa parte de minha vida me diverti cortando cabeças. Cortava com uma precisão milimétrica. Desenvolvi técnicas sutis que não permitiam qualquer reação da vítima. Chegava por vezes a eliminá-las por inteiro da paisagem, mas elas só se davam conta que estavam sem cabeça, ou sem corpo, tempos depois. Certamente me odiavam por isso. Era linda a minha arte.
As máquinas digitais vieram para destruir meu trabalho. Tornaram as recordações de viagem muito chatas. Era bem mais divertido quando o indivíduo, ao revelar a foto, percebia que tinha sido degolado ou, simplesmente, não existia. O sucesso da foto podia ser medido pelo ódio do fotografado ao ver a revelação.
Chega ao trabalho todo satisfeito com o pacote de fotografias nas mãos, louco para mostrar a todos sua superioridade viajante e eis que, bem diante do Coliseu, do Pathernon, do Metropolitan ou do Opera House, nada. Nada. O colega, com toda maldade, mesmo reconhecendo aquela camisa laranja com listras verdes, sentencia:
- Esse não é você, é?
– Sou eu sim. Olha a camisa!
– Não me lembro dela.
- Então olhe o sapato!
– Ei!!! Não ouse tirar este sapato!! Você veio com ele a semana toda.
– Não sabia que você reparava no meu sapato. Isso é coisa de mulherzinha.
– O que você está insinuando?
– Não estou insinuando nada. Só disse que é coisa de mulherzinha ficar reparando na roupa dos outros.
E lá vinha eu caminhando calmamente quando vi a máquina fotográfica nas mãos de um deles, e outros cinco ou seis prontos para a foto histórica diante da enorme placa de cimento da Advocacia-Geral da União. Lembrei-me de todas as minhas aventuras e odiei as máquinas digitais, mas ao me aproximar percebi que havia uma chance de tratar-se de máquina analógica.
O sujeito me pediu para fotografá-los. Não queria ficar de fora do registro histórico. Recém aprovados no concurso de Advogado da União queriam uma imagem diante da placa. Quando peguei a máquina em minhas mãos, não acreditei: era analógica. O passado correu filme veloz em minha mente. Ouvi com bastante atenção as recomendações:
- Você enquadra de forma que apareçamos todos nós e também o nome na placa.
– Claro. Fique tranquilo. Sou um profissional!
Posicionaram-se fingindo que eram bonitos, ricos e inteligentes. CLIC!!!
Entreguei-lhe o registro ainda secreto da placa e de algumas pernas. Não me agradeceu. Nem me importei.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Chico Buarque - Flor da Idade

 "A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia pra ver Maria. A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia......" 
Abaixo, o video de 1976 traz Chico Buarque cantando "Flor da Idade" sob a regência de Francis Hime. E, ao violão, alguém que me parece o grande mestre Heraldo do Monte. Além dele, no minuto 1:09, para meu espanto creio ter visto ao violino o escritor português José Saramago. Mas talvez não seja ele. Talvez eu tenha bebido.
"Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor..."


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

La Petite Périgourdine - Paris


Pavê de Boeuf, Aligot
O La Petite Périgourdine é um pequeno restaurante situado na Rue des Ecoles, 39, no Quartier Latin, próximo à Sorbonne. Está entre os 100 melhores de Paris, o que não é pouco, considerando a fama gastronômica da cidade. Mas nada de badalação, ostentação ou coisa parecida.
O prato mais famoso da casa é o “Pavê de Boeuf, Aligot”, um filé com molho de gorgonzola acompanhado do famoso purê de batata e queijo tomme. Abaixo, segue o video do momento em que o purê é servido.
Se você vai a Paris creio que vale à pena uma visita ao restaurante. O  ambiente é muito simples e agradável, totalmente de acordo com a presença dos estudantes, turistas e moradores dos arredores, que chegam ao local de bicicleta ou a pé.
Para quem quer se arriscar na cozinha, vai aí a receita do purê: - 500 gramas de batata – 250 gramas de queijo tomme fresco - 20ml de creme de leite fresco – 15 gramas de alho picado, sal e pimenta. Mexer a mistura numa temperatura de 80º C até encontrar o ponto de fio.

video



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sinuca com Walter Silva e Paulinho da Viola

Paulinho da Viola, Osias Canuto e Walter Brasília
Paulinho faz jus ao apelido de “Príncipe da MPB”. É um sujeito gentil e tranquilo, que te trata sempre com muita educação  e  simpatia. Aliás, um temperamento muito parecido com o do mestre Walter. Talvez por isso o tenha escolhido para padrinho de uma de suas filhas.
Além do incontestável talento musical, Paulinho da Viola é um apaixonado pela sinuca, e joga com clara competência. Passar uma noite entre ele e seu compadre Walter Silva, jogando sinuca e ouvindo música, é algo que não se descreve. Sendo assim, não vou correr o risco de falar demais e diminuir o que aconteceu comigo.

Osias Canuto e Paulinho da Viola 



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Tratamento da Enxaqueca


Osias Canuto
Impulsionado por terceiros lá fui eu à consulta com o médico que me livraria das dores de cabeça que sofro desde que me entendo por gente. A foto ao lado, aos 4 anos de idade,  não me deixa mentir.
– Evite macarrão, pão, salame, pizza, chocolate, vinho, amendoim, cerveja, sol, luz em excesso, perfumes fortes, barulho, comer demais, comer de menos. Evite aborrecimentos, emoções fortes.... e por aí vai. 
Olhei para trás procurando uma outra pessoa dentro do consultório a quem o médico pudesse estar passando aquelas recomendações todas. Talvez um defunto ou uma estátua. Não havia ninguém. Era comigo mesmo que ele estava falando. Um pouco preocupado com a quantidade de restrições, resolvi esclarecer uma dúvida: 
– Mas essas prescrições são para agora, enquanto estou vivo? Ou devo segui-las somente depois de morto?
- Sei que é difícil, mas garanto que isso vai livrá-lo das dores. 
- Entendo. 
Deixei o consultório com uma série de recomendações e um punhado de pedidos de exames. No elevador o ascensorista sorri: Bom dia! Não respondi. Fiquei olhando para ele, em silêncio, tentando lembrar se o médico havia dito algo sobre os riscos de responder a um "bom dia". Saí do elevador sem conseguir me lembrar e, pior, sem responder. Lembrei-me das minhas dores de cabeça e de todos os belos momentos que tínhamos vivido juntos. Ao ver a primeira lixeira depositei todos os pedidos de exames e também todas as prescrições restritivas. Ainda não estava pronto para uma separação tão brusca e, principalmente, para tantos e tão insuportáveis sacrifícios. 
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Flamengo até Morrer! Será?


Charles Darwin empregou o termo "Sobrevivência do Mais Apto" como sinônimo de "Seleção Natural". O organismo que se adapta mais facilmente ao meio aumenta suas chances de sobrevivência num mundo hostil e adverso.
E lá ia a moça caminhando vestida no manto sagrado do Flamengo. Era linda. O verdadeiro canalha deve pensar rápido. Tirei a camisa na qual estava equivocadamente trajado e parei o carro. Ofereci carona e fomos comemorar o título de campeão brasileiro. Éramos uma emoção só. Um só coração rubro-negro. Cantamos o hino, pulamos, gritamos como ensandecidos na geral do Maracanã:  Meeenngoooo!!!
Em pouco tempo ela já se considerava minha namorada, noiva, esposa e já estávamos fazendo planos. Nos casaríamos numa igreja enfeitada com bandeiras do nosso time, passaríamos a lua de mel no Rio de Janeiro, iríamos juntos ao estádio torcer pelo nosso time. O terno e o vestido de noiva fariam lembrar as cores do Mengão, um espetáculo só possível quando paixões tão intensas se misturam!!! Incrível como a emoção do futebol decide destinos. 
Assim prosseguimos sonhando e, principalmente, comemorando. Ela me apresentou outras tantas lindas flamenguistas e a todas beijei e abracei com rubros sentimentos e negras intenções, afinal, o nosso Flamengo era campeão brasileiro. Mas o local estava demasiado cheio, e acabamos nos perdendo um do outro. Procurei-a por alguns instantes e, como não encontrei, meu amor por ela foi declinando a cada passo e renascendo em outras faces. Eram tantas rubro-negras, e estavam todas tão felizes e acessíveis. Terminei a noite nos braços de outra linda torcedora cujo nome também não me lembro. 
Quando entrou no meu carro, ao ver a camisa que eu tinha tirado no começo da história perguntou: - O que é isso? Respondi com toda naturalidade possível: – É minha camisa do Botafogo! – Mas você não estava lá cantando o hino do flamengo? – Estava. Mas não vamos nos apegar aos detalhes. – Então, você é Botafoguense? – Sim, Botafoguense. Mas não sou cego nem burro! 
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

On The Road






 
Por vezes ocorre de eu compor algo que não sei exatamente por que o fiz. Consigo identificar o sentimento, mas não o objeto que o provocou. E assim a música vai ficando sem título e sem ser gravada. 
Viajando pela Interestate 15 North, estrada que liga Los Angeles a Las Vegas, decidi capturar algumas imagens da bela paisagem do deserto e montar um vídeo clipe. A música que eu usaria já tinha na cabeça. Se enquadrava num desses casos descritos acima. Composta há muitos anos, esperava no armário por essas imagens. Agora encontraram-se corpo e alma.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

O Amigo do Traficante


Não gostava, o rapaz, de andar com o amigo traficante quando este estava traficando. Era demasiado arriscado, e já tinha avisado ao amigo que não misturasse amizade e trabalho. Mas nenhuma amizade está baseada em critérios tão claros e fáceis de serem controlados. 
Você me leva ao Setor Hoteleiro Sul? 
– Levo. 
– É coisa rápida. Só vou deixar lá um negócio.
– O quê? 
Fica tranqüilo! 
– Ainda me meto numa roubada por andar com você. 
– Fica tranqüilo! Não tem erro. Já fiz isso muitas vezes.
O rapaz não quis aguardar no carro e desceram juntos para a tal entrega. Na portaria do hotel o traficante cumprimentou a todos como quem cumprimenta parentes ao entrar em casa. O rapaz esboçou um sorriso sem graça e também cumprimentou a todos. No fundo, movido por perigosa curiosidade, achava aquilo tudo estranhamente divertido, apesar do óbvio risco de ser preso como traficante sem jamais ter traficado coisa alguma. 
No apartamento, nos últimos andares, doze meninas esperavam pelo senador. Era dia de uma votação importante no senado e ele tinha que estar presente até o fim da sessão. Por falta do que dizer, o rapaz perguntou:
– Ele é casado, não é? 
– É, e bem casado. Conheço a esposa dele. Uma senhora muito educada.
– Doze garotas de programa?
É. Ficam aí comendo e bebendo enquanto não acaba a sessão no senado. Quando chegar, ele vai selecionar umas cinco e as outras vão ter que ir embora.
– E aí? Elas perderam a tarde?
– Não. Vão receber uma boa grana só porque esperaram até agora. 
Mas se elas cheirarem esse pó todo a coisa vai desandar até a noite!
Elas não cheiram sozinhas. O pó fica com o assessor dele até a noite. Literalmente, elas comem na mão dele.
Mas o senador também cheira? 
Acho que não. Só um pouco. Sei lá. Deve cheirar alguma coisa, só para não ficar totalmente limpo e fora da energia da balada. O que eu sei é que toma um uísque violento. 
No entreabrir da porta, para que a entrega fosse feita, o rapaz conseguiu olhar as acompanhantes. Algumas eram realmente bonitas, outras, nem tanto. Havia também comida e bebida em grande quantidade. 
Para o bem ou para o mal, o velho parlamentar era um profissional competente na arte de aproveitar a vida. Já está longe do senado, mas deixou enormes rastros de diversão espalhados pelos hotéis da capital federal e, com certeza, vários admiradores e continuadores de sua alcoviteira obra.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O Natal, o Casamento, A Existência de Deus e o Nada Absoluto

Manhã de Natal em NY. Como acordo muito cedo, antes de todos, sempre saio para caminhar pela cidade e pensar um pouco sobre questões que, em geral, só atormentam a mim. No caso específico, as querelas do filósofo Adolf Grunbaum contra a possibilidade de Deus ou do Nada. Mergulhando nessa encrenca por cerca de duas horas, retorno ao hotel com a cabeça fervendo de ideias e acordo minha esposa para expor minhas conjecturas. Durante um bom tempo despejo em seu ouvido questões sobre Espaço e Tempo, o Absolutismo de Newton, o Relativismo de Leibniz, a Relatividade de Einstein e a fórmula matemática de Leibniz para vencer a passagem do Nada ao Ser (1/2 = (1-1) + (1-1) + (1-1)...)
Descarrego coisas a cerca do princípio do universo, da explosão de energia e matéria que impedem uma noção de espaço e tempo anteriores à ela e, consequentemente, do próprio ato de pensar ou da existência de um criador ex-nihilo. Além disso, a opção da ciência pela teoria mais simples criaria um problema para o Demiurgo: sua existência exigiria uma manobra mais complicada do que um mundo criado por ele. E, por fim, a briga de Grunbaum contra a grande aceitação da Teoria do Nada. Uma Teoria que não tem características arbitrárias, uma vez que não postula Leis nem Entidades.
Minha esposa, cabeça privilegiada que entrou na UnB aos 16 anos e saiu formada em Matemática e Ciência da Computação, ouve tudo com absoluta atenção e, para dissolver todas as minhas angústias, repete sua grande máxima: como faremos para colocar todas as cosias que comprei, e ainda pretendo comprar, dentro das malas?
Sobre isso, confesso, eu não havia pensado! Não é por acaso que me juntei a ela. É o ser humano perfeito aos meus dramas metafísicos!

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Fila Night Run


Conta a lenda, que no ano de 490 a.C., soldados gregos deixaram Atenas rumo à planície de Marathónas a fim travar guerra contra os persas. Estes últimos haviam jurado que, vencida a batalha, iriam até a capital grega para violar as mulheres e matar as crianças. Assustados, os atenienses ordenaram a suas esposas que se no espaço de um dia não chegasse notícia de sua vitória, matassem seus filhos e, em seguida, se suicidassem. Os gregos conseguiram a vitória, mas a luta durou mais tempo que o previsto e eles ficaram com medo que elas dessem conta do combinado. Preocupado, o general Milcíades ordenou ao soldado Filípides que corresse os 42 km até Atenas para dar a boa notícia. Filípides cumpriu a ordem, mas ao chegar disse apenas "vencemos", e caiu morto.
A corrida Fila Night Run é realmente um espetáculo. Minha esposa, com sua profunda sabedoria e desconfiança, não permite que eu compareça sozinho ao local. Moças e senhoras muito bonitas e distintas, todas devidamente maquiadas, completam a prova de 5 Km no assombroso tempo de 50 e muitos minutos, ou seja, tempo suficiente para dar duas voltas ao mundo. Fico me perguntando o que estas elegantes criaturas fazem durante o percurso? Quem saberá?
Vamos aos fatos. Chegando lá já encontro um amigo de infância.
– Ainda não parei de fumar. Tá complicado. Hoje só vim para passear e ver as mulheres. Será que você não pode me conduzir para que eu faça os 5 km em 30 minutos?
Considerando o número enorme de atletas que tem a prova decido que não é uma má idéia ajudá-lo em tal propósito.
– Ok. Eu dito o ritmo.
E lá vamos nós. Tudo muito lento. É uma quantidade infinita de gente que pretende largar e chegar sem estragar o cabelo ou a pintura. Não posso atrapalhá-los. Ninguém tem obrigação de se inscrever numa corrida para correr.
Meu colega parece satisfeito com o ritmo. Olha para um lado e para o outro resfolegando e admirando a paisagem. Na altura do segundo quilômetro o primeiro posto de água. Meu amigo está muito cansado. Arrastando-se no deserto clama por água. Digo-lhe que continue correndo, andando, sei lá, e pego um copo para ele. Antes que eu possa alertar que deve apenas molhar a boca ele toma tudo e vejo que seus olhos pedem mais. Porém, diante do posto de água travava-se uma verdadeira batalha. Todos avançam como se fora um oásis no Saara. Corpos se movem em flagelo implorando o líquido precioso que irá salvá-los. A maioria pega mais de um copo. Vendo aquela luta desesperada após apenas dois quilômetros de corrida lembro-me da história das maratonas. Naquele instante, dezenas de Filípides já ameaçavam cair mortos em pleno deserto da Esplanada. Apesar dos tênis de alta performance e dos modelos adequados de shorts e blusas, se dependesse destes guerreiros e guerreiras teria ocorrido uma tragédia em Atenas. Felizmente tratava-se apenas de uma corrida de final de semana, e todos estávamos ali somente por diversão.
Prosseguindo, nos deparamos com novo obstáculo. Lá vinha uma senhora correndo com seu cachorrinho. Corretíssimo. Uma corrida de rua é perfeita para que você leve seu cachorro. Ainda mais se ele for minúsculo. A madame estava desesperada tentando que ninguém pisasse o animal. Não sei se conseguiu o feito, pois me deparei com ela no quilômetro três. Um encontro nada agradável. A coleira do ultrajado cão enganchou-se nas pernas do meu amigo, não o levou ao chão, mas o derrubou. Tentou usar o acontecido como um pretexto para desistir. Não permiti. Enfim, entre trancos e barrancos apontei a ele as luzes da reta final. Terminamos o desfile dentro do tempo planejado.
Superado o estranhamento e já imbuído do espírito da prova planejo para o próximo ano executar a corrida de uma forma mais apropriada. Talvez eu corra de costas ou num pé só.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Desencontro - Toquinho e Osias Canuto



Na gravação do disco "Chico Buarque de Hollanda Volume 3" a música Desencontro é interpretada por Chico Buarque e Toquinho. Agora, com muita satisfação, chegou a minha vez de cantar Desencontro na ilustre e agradável companhia da voz e violão de Toquinho.
Osias Canuto e Toquinho




quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Oração e a Ligação


Cristo - Salvador Dalí
O rapaz acorda assustado com o telefone tocando em plena madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. 
– Huuumm. Que foi? 
– Você não me conhece. Quer dizer.... todo mundo me conhece.... mas nunca nos falamos. Quer dizer.... já nos falamos..... Quer dizer... você falou. Não, não....  você rezou. Espera aí... Tô fazendo confusão! Todos falam comigo, eu ouço, mas talvez jamais alguém tenha me ouvido. Aaahhhh! Você entende o que eu to dizendo, né?
Sim, entendo. 
Então vamos ao que interessa: teria jeito de você fazer uma versão nova do Pai Nosso? 
– Eu? Mas por quê? O que tem de errado? 
Não tem nada de errado. Apenas cansei de ouvir a mesma cantilena repetidas vezes. E tem também o fato de que você escreve esse monte de insanidade nesse seu blog, daí  eu pensei em te dar uma chance de produzir algo útil ao menos uma vez na vida. O que acha?
Pode ser. Mas não sei se devo. E se você não gostar? 
Fique tranqüilo. Apenas faça. 

Dias depois, o telefone toca novamente e a voz vai direto ao assunto:
  E então? Tá pronto? 
Sim. Olha... eu acabei mesmo foi retirando os excessos. Ficou assim: PAI NOSSO, SEJA FELIZ POR TODA A ETERNIDADE! AMÉM!

(Silêncio) 

Muito bom! Muito bom! É a primeira vez que alguém se lembra de mim e me deseja felicidade. 
Pois é. Eu pensei que, se ao invés de ficar com essa mania egoísta do ser humano de pedir, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje, livrai-nos do mal, perdoai nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação”, blá, blá, blá.... blá, blá, blá, seria melhor que apenas desejássemos sua felicidade, e nada mais. 
Claro, claro. É isso mesmo. Ninguém jamais pensou nisso: desejar minha felicidade. Estou muito emocionado. Obrigado. Já vou decretar a alteração.

Uma semana se passa e novamente o telefone toca na madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. Lembra de mim? Aquele do Pai Nosso?.... Brincadeira! Você ficaria magoado se eu voltasse a versão original da oração, com aquela coisa toda de pedir, pedir, pedir? 
Não. Claro que não. A oração é sua.
É que descobri que a vida só faz sentido se tenho todos aqueles humanos pedidos para atender. Olha.... os homens sempre foram essa estrutura equivocada e perdida na vastidão do universo, e eu não me sentiria bem em abandona-los.
Entendo. 
Que bom! Não fica mesmo chateado? 
Não. 
Então, tchau. 
Tchau.
Ei?
O quê? 
Você não quer pedir nada?.... Brincadeira!
A vida é realmente bela!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Assassina No Cartaz de Shopping


Apaixonou-se pela moça do cartaz. Encontravam-se sempre das 10 da manhã às 10 da noite, ou seja, no período de funcionamento do shopping. Viviam um amor calmo, sem cobranças. Ela, estampada na enorme parede da entrada principal, estava sempre escandalosamente linda. Ele, por vezes alegre, por vezes tristes, mas sempre apaixonado. Os espasmos de tristeza vinham por conta de uma ponta de ciúmes, quando via que alguns homens paravam diante dela e teciam comentários. 
Como trabalhava numa loja bem em frente ao cartaz, passava longas horas trocando olhares com ela e comentando com um amigo: 
- Viu como ela me olha? É sempre assim. 
- Você está louco? Ela não está te olhando. Olha para qualquer um que esteja olhando para ela. É uma questão de ângulo. Isso é apenas um cartaz! 
- Não. Não é. Compreendo sua inveja por ela não olhar para você. Que acha de eu chamá-la para jantar hoje?
- Isso. Perfeito. Se ela for, eu te dou todo meu salário deste mês.
- Mas não sei se devo.
- Deve. Pelo amor de Deus, faça isso! Chame-a para ir a sua casa, para jantar, para beber e depois ir para a cama com você. Vai ser incrível!
 - Não. Não chamarei. Você está sendo grosseiro. Sinto que ainda não é o momento. 
Assim se passavam os românticos dias do lunático, até que o cartaz sumiu. O amigo, que sempre chegava mais cedo para o trabalho, aguardou o apaixonado, feliz por poder lhe dar a péssima notícia. Ele chegou, cumprimentou a todos sem olhar para a loja do cartaz. O amigo não podia esperar pelo momento da decepção. Mas antes que pudesse dizer algo o outro falou:
- Estive pensando e decidi terminar o namoro. Acho que já não somos tão felizes como no início. Vou dizer isso a ela hoje.
- Não, você não vai dizer. A fotografia não está mais aí. Vê? Era somente uma fotografia e foi retirada. 
Sem ouvir o que o outro tinha dito, falou: 
- Pobre moça, deve ter percebido o que aconteceria e partiu. Melhor assim. Poupa-nos do desgaste de uma despedida. 
Pouco tempo depois surgiu novo banner com a mesma modelo. O amigo temeu pelo pior. E o pior sempre vem. - Você viu como ela me olha?
- Que história é essa? Isso é um banner. Um banner. Ela não está te olhando. Ela não está olhando pôrra nenhuma. É apenas uma foto! 
- É por isso que as mulheres te desprezam. Você vê nelas apenas uma imagem. Eu identifico nelas o perfume, a poesia, o desejo, a vida.
- Ora, você é um maluco! Quê vida? Quê poesia? Isso é uma imagem. Uma imagem!
Após uma semana, chega o chefe da loja e dá a notícia da morte por suicídio. O amigo, arrasado, pergunta:
- Mas por que ele fez isso?
- Dizem que deixou um bilhete relatando uma desilusão amorosa. A polícia esteve aqui fazendo perguntas e está procurando alguma mulher com quem ele tenha se relacionado recentemente. Você sabe de alguma coisa?
O amigo olha para o cartaz diante da loja e diz:
- Não, não sei de nada. Mas creio que não vão encontrá-la.
- Por que você diz isso? 
- Sei lá, apenas uma suspeita. 
Olha novamente o cartaz e pensa: Muito estranho esse jeito que ela me olha.
A partir de então, seguindo os passos do amigo morto, começou a namorar a moça do cartaz. Mas tomava muito cuidado, pois, além de linda, ela lhe parecia fria e calculista. Talvez fosse uma assassina profissional.
Um mês se passou antes que fosse encontrado morto. A polícia não encontrou motivo aparente para o suicídio. Mas o chefe alertou para a possibilidade de algum amor não correspondido.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Crônica de Um Amor Louco

Crônica de Um Amor Louco é o primeiro volume da obra Ereções, Ejaculações e Exibicionismos, de Charles Bukowski. Nascido na Alemanha e criado nos Estados Unidos, Bukowski teve uma vida completamente louca. Por conta de algumas inflamações que deixaram marcas por todo seu corpo, sofreu psicologicamente muito mais do que o normal. Se é que isso é possível de se dizer: foi salvo pelo álcool e pelos livros. 
Levou uma vida miserável que lhe favoreceu a escrita. Conhecia exatamente o submundo sobre o qual escrevia. Seus livros são, além de literatura, autobiografia, e isso o tornou um escritor único que levou muitos imitadores de seu estilo a fracassarem, pois ao contrário de Bukowaki, não tinham a matéria prima na alma. Como um alerta aos imitadores, em sua lápide está escrito: Don´t Try.
Mas não vou ficar aqui escrevendo a biografia de Bukowski, o que eu queria mesmo era falar de Ornella Muti.
Assisti algumas centenas de vezes ao filme Crônica de Um Amor Louco (Storie di Ordinaria Follia), de Marco Ferreri, com Ben Gazzarra e Ornella Muti. E de tanto assistir acabei compondo a canção “Mares”. Uma homenagem à Ornella, que agora coloco no Youtube (link abaixo), com imagens do curta “Histoire Sans Parole”.
Ornella, no auge dos seus 22 anos, não era uma mulher, era um escândalo!! 
A vida é realmente bela!!
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