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segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Trapacista Degolante



Durante boa parte de minha vida me diverti cortando cabeças. Cortava com uma precisão milimétrica. Desenvolvi técnicas sutis que não permitiam qualquer reação da vítima. Chegava por vezes a eliminá-las por inteiro da paisagem, mas elas só se davam conta que estavam sem cabeça, ou sem corpo, tempos depois. Certamente me odiavam por isso. Era linda a minha arte.
As máquinas digitais vieram para destruir meu trabalho. Tornaram as recordações de viagem muito chatas. Era bem mais divertido quando o indivíduo, ao revelar a foto, percebia que tinha sido degolado ou, simplesmente, não existia. O sucesso da foto podia ser medido pelo ódio do fotografado ao ver a revelação.
Chega ao trabalho todo satisfeito com o pacote de fotografias nas mãos, louco para mostrar a todos sua superioridade viajante e eis que, bem diante do Coliseu, do Pathernon, do Metropolitan ou do Opera House, nada. Nada. O colega, com toda maldade, mesmo reconhecendo aquela camisa laranja com listras verdes, sentencia:
- Esse não é você, é?
– Sou eu sim. Olha a camisa!
– Não me lembro dela.
- Então olhe o sapato!
– Ei!!! Não ouse tirar este sapato!! Você veio com ele a semana toda.
– Não sabia que você reparava no meu sapato.
– O que você está insinuando?
– Não estou insinuando nada.
E lá vinha eu caminhando calmamente quando vi a máquina fotográfica nas mãos de um deles, e outros cinco ou seis prontos para a foto histórica diante da enorme placa de cimento da Advocacia-Geral da União. Lembrei-me de todas as minhas aventuras e odiei as máquinas digitais, mas ao me aproximar percebi que havia uma chance de tratar-se de máquina analógica.
O sujeito me pediu para fotografá-los. Não queria ficar de fora do registro histórico. Recém aprovados no concurso de Advogado da União queriam uma imagem diante da placa. Quando peguei a máquina em minhas mãos, não acreditei: era analógica. O passado correu filme veloz em minha mente. Ouvi com bastante atenção as recomendações:
- Você enquadra de forma que apareçamos todos nós e também o nome na placa.
– Claro. Fique tranquilo!
Posicionaram-se fingindo que eram bonitos, ricos e inteligentes. CLIC!!!
Entreguei-lhe o registro ainda secreto da placa e de algumas pernas. Do alto de sua burrice, não me agradeceu. Não me importei. Como diria o ditado popular: Vingança é um prato que se "fotografa" frio!

terça-feira, 15 de maio de 2018

A Dama do Lotação - Pecado Original


Quando a gente volta o rosto para o céu 
e diz olhos nos olhos da imensidão:
- Eu não sou cachorro não!

“Você há de brilhar como o Sol, até o fim dos tempos” – Essa foi a frase dita por Nelson Rodrigues para Caetano Veloso. O autor fazia o elogio após ouvir a canção Pecado Original, composta por Caetano para o filme “A Dama do Lotação”, de Neville de Almeida, e baseado na obra de Nelson Rodrigues.  Considerando a belíssima melodia e a letra irretocável, eu diria que o escritor não cometeu nenhum exagero. 
Quando ouvi pela primeira vez essa canção já corri para o violão e tratei de tocá-la. De lá para cá, tornou-se uma das minhas canções preferidas. Daquelas que nunca deixo de tocar. 
A vida é realmente bela!


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Carlinha Seis Ursinhos


Do narrador aos seus leitores: Na qualidade de sobrevivente aos fatos eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, narro a vocês, curta, a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Quem poesia espera, não leia.
Nascida Carla das Luzes Albuquerque Vieira, Carlinha Seis Ursinhos nunca deu muita conversa às companheiras de prisão. Silêncio quase de uma morta. Olhos de camaleão que todos os ângulos observam. Sobre a prateleira improvisada da cela, o retrato da irmã morta é quase a imagem de uma santa para todas as presas. Todas conhecem a história do crime e da vingança. Acendem vela, rezam, pedem perdão, proteção e tudo o mais que se costuma pedir aos santos.
A irmã de Carlinha foi morta aos dezesseis anos por dois promotores. Morreu com um tiro na cabeça após sofrer tortura e estupro. Impunes, sorridentes, durante todo o processo foram menos culpados que estrelas. A justiça é diferente aos julgados pelos iguais. E os iguais deram um jeito de tornar a pena o mais branda possível. A morta foi encontrada com uma arma na mão. Mas, para todo mal, duas justiças possíveis. E a melhor é a que é feita com muita dor. Os assassinos esqueceram já na primeira noite o corpo da morta. A irmã lembrou sempre e cresceu com o gosto do sangue enchendo a boca todos os dias. Uma, interrompida, e a outra, crescendo, o tempo cuidou de fazer da mesma idade existente e existida. Dezesseis anos. A morta nada mais podia. A viva decidiu vingança.
Uma menina não deve planejar morte sozinha. O mendigo Apocalipse já tinha perdido há muito o sentido do certo e do errado, do possível e do impossível, do real e do imaginário. Esta última característica era a que o tornava útil a Carlinha. Morava num ponto de ônibus e a menina o conhecia desde pequena. Crescera ouvindo falar de suas loucuras e alertada de que deveria manter distância dele. Muitos vizinhos afirmavam que já o tinham visto transformado num cachorro. Grande e forte, seguidas vezes se metia em confusão com outros mendigos. Carlinha, sem nenhum medo aproximou-se, explicou e pediu ajuda. Apocalipse sorriu e aceitou. Mas deixou claro que no retorno de Jesus eles teriam que prestar contas.
Carlinha Seis Ursinhos e o desajustado tornaram-se inseparáveis e infindáveis nas conversas. Ele sabia exorcizar por métodos dolorosos e contou a ela histórias sem fim de suas vidas passadas. Apocalipse, entre outros conhecimentos como alquimia, magia e astronomia, era também dotado da visão do fogo e do enxofre. Contou a Carlinha sobre a Santa Caverna, na igreja de Agia Anna, na Ilha de Patmos, onde São João ditou a seu discípulo Prochoros o Apocalipse. As imagens muito impressionaram a menina. Sua mãe ficava desesperada com aquela amizade, e de tudo fez para encerrá-la. Contra todas as investidas da mãe, cada vez mais se tornavam amigos. E assim se passaram dois anos, até que a mãe desistiu e ninguém mais na vizinhança se importou com aqueles dois lunáticos que viravam dia e noite em diálogo sem fim.
Durante esse tempo os dois seguiram de perto os promotores assassinos. Ela, vestida de mendiga e ele, dizem, no formato de um cão. Casa, trabalho, bar, boate, tudo o que era possível a uma menor e um mendigo conhecer sobre a vida de dois homens de classe abastada eles conheceram.
Chegado o momento e a idade certa, dezoito anos, Carlinha Seis Ursinhos, linda como sua irmã fora um dia, deu um jeito de aproximar-se dos Promotores. Um pouco mais de três encontros e logo eles levaram a conversa para onde ela queria. Ela, fria matemática e lógica deixou-se seduzir. Os dois mergulharam em encanto e desejo. A menina abriu as portas para o encontro a três, no apartamento de um deles. No grande dia trazia seis ursinhos coloridos, de plástico duro e cores variadas, pouco menos de dez centímetros cada. Brinquedos de infância da irmã morta.
Carlinha era uma graça. Os olhos verdes cravados na pele morena. Procurou não criar muitos empecilhos. Com todo nojo, que soube disfarçar, deixou-se beijar e acariciar por ambos. Tudo tinha que dar certo e, para isso, ela já estava preparada para o que teria que agüentar. Sentiu medo ao propor amarrá-los. Pela primeira vez se dava conta do absurdo que estava propondo. Era muito primário. Nenhum homem cometeria tamanha estupidez. Cometeram. Os dois deixaram-se atar à cama, que de burrice nunca é plena a cabeça de homem apaixonado. Era só uma menina franzina de dezoito anos. O que poderia acontecer demais? Aconteceu.
A menina saiu do quarto prometendo uma surpresa ao retornar. Abriu a porta do apartamento e fez entrar Apocalipse. Quase não o reconheceu. Estava belo e medonho como a própria imagem do demônio, que ela um dia ouviu descrita pela boca do mendigo. Trazia no rosto a seriedade e gravidade que o momento exigia. O carrasco adentrou a sala de torturas e abriu uma pasta de onde retirou alguns recortes de jornal com o rosto da irmã de Carlinha. Aproximou cada um deles do rosto dos magistrados de forma que pudessem reconhecer e lembrar. Os promotores sentiram um estranho frio que só se deve sentir na hora da morte. Apocalipse foi tomado por um misto de nojo e decepção ao ver o pavor estampado na cara dos dois merdas. Por um instante descontrolou-se e desferiu vários socos em seus rostos. Foi preciso que Carlinha interviesse para que ele não acabasse com tudo ali mesmo. Ela pediu paciência. A morte deveria ser sofrida como a de sua irmã. Era isso que tinham combinado tantas vezes.
Todo o processo se daria tendo como referência as imagens narradas por São João.
“E foi assim que eu vi os cavalos e os que os montavam: estes últimos eram couraçados de uma chama sulfurosa azul. Os cavalos tinham crina como uma juba de leão e de suas narinas saíam fogo, fumaça e enxofre.” (São João, Apocalipse 9,17)

Em alusão aos cascos dos cavalos apocalípticos pegaram dois pedaços de pau e bateram o quanto puderam no corpo dos advogados. Após a surra, fizeram queimaduras em suas narinas com pontas de cigarro. Apocalipse também derramou em seus olhos um liquido que tinha preparado especialmente para aquele momento. Queimava como ácido. E não faltou repertório de maldades vinculadas ao texto bíblico, até que Carlinha saiu do quarto e retornou logo após com os seis ursinhos. Apocalipse não gostou. Seis ursinhos? O que era aquilo? O carrasco argumentou que aqueles ursinhos poderiam desmoralizar todo o processo. Não havia qualquer referência de São João a imagem de ursinhos apocalípticos. Carlinha falou que não abria mão dos bonequinhos. Tinha sonhado com eles e, no mais, pertenciam à infância de sua irmã, portanto, estavam plenamente inseridos no contexto. A menina fez uma pequena demonstração do poder dos ursinhos. Pegou dois deles, passou um pouco de vaselina e bastante vidro moído quase como sal. Introduziu vagarosamente na “rede de esgoto” dos advogados que, a esta altura das perversidades, eram dois farrapos de gente. A cada gemido Apocalipse socava os merdas com desprezo. Estava decepcionado com a frouxidão dos Data Venia. Não combinava com a grande luta entre Deus e o Diabo por ele imaginada.
Plenamente introduzidos os dois primeiros ursinhos, Carlinha pegou mais dois e, desta vez, foi Apocalipse quem fez o serviço. Os dois ursinhos que restaram foram para a testa, para marcar o lugar do tiro que viria. Apocalipse fez então a grande fala que finalizaria com a sentença. Foi um discurso longo, de quase vinte minutos, acompanhado com bastante atenção e seriedade pela menina. Os promotores nada ouviram, pois a dor provocada pelos ursinhos introduzidos no ânus era insuportável. Remexiam-se o quanto era possível fazendo escorrer o sangue no lençol branco. Apocalipse explicou que nem ele, nem Carlinha, nem ninguém podia contra aquele tipo de justiça, portanto não cabia ali nenhuma espécie de recurso. A sentença seria cumprida imediatamente. Carlinha Seis Ursinhos pegou o revólver e meteu uma bala na cabeça de cabeça de cada um dos Promotores. Simples assim. Como jamais tinha atirado em sua vida, para não correr risco de errar, atirou com a arma colada a testa dos advogados. Isso fez um estrago sem tamanho, e o sangue, juntamente com pedaços de crânio e miolos, voou em todas as direções. A menina descobriu tardiamente que o louco não era assim chamado ao acaso. O louco é louco mesmo. Apocalipse, possuído subitamente por visões de cavalos e cavaleiros em chamas, derramou gasolina em todo o quarto e ateou fogo. A menina, assustada e impressionada com o que via, desmaiou. Apocalipse ergueu-a em seus braços com o carinho e cuidado de um pai. Se alguém pode conceber um cenário pavoroso para o fim dos tempos, este estava naquele quarto. O que os dois cúmplices fizeram era de dar medo ao próprio demônio.
Carlinha e o mendigo deixaram o apartamento e caminharam em silêncio. Não tinham receio de polícia, cadeia ou justiça dos homens. Isso tudo era bobagem. O certo era irreversível e estava feito.
A menina foi presa dois dias depois enquanto jantava com a mãe. A prisão de Apocalipse não ocorreu e tornou-se envolta em mistério. Os policiais encarregados de prendê-lo, para evitar a humilhação, informaram que ele não fora encontrado. Porém, a história real, narrada por várias testemunhas, dá conta de que o mendigo, ao ser cercado no ponto de ônibus onde morava, desapareceu numa nuvem de fumaça e enxofre.
Do narrador aos seus leitores: Eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, encerro aqui a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Nem santa, nem monstro, apenas uma menina.
“Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte.” (São João, Apocalipse 21,8)

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Segredo


                    Você é mais bonita que o mar azul-turquesa da Grécia,
                    que os campos de lavanda no sul da França,
                    que a Fontana-di-Trevi, que a Vitória de Samotrácia,
                    que um fim de tarde na ilha de Santorini.

                    Você é mais bonita que a chuva nos Jardins de Luxemburgo,
                    que o sol nas alamedas de Paris,
                    que o vento entre as colunas da Acrópole,
                    que a neve caindo nas ruas de Nova York no natal.

                    Você é mais bonita que uma letra de Chico Buarque,
                    que um quadro de Van Gogh,
                    que um romance de Dostoievski,
                    que Ornella Muti na Crônica de Um Amor Louco.

                     Pensando bem, você é mais bonita que tudo.
                     E esse tudo me deixa confuso e cansado.
                     Cansado de não poder te tocar,
                     cansado de não poder te beijar,
                     cansado de não poder falar ao seu ouvido o quanto você é linda!




terça-feira, 3 de abril de 2018

Receituário Para a Salvação das Almas

Entre tantos textos lidos que povoam minha cabeça desde a mais tenra idade existem alguns que me perseguem diariamente, e que eu os carrego tatuados em minha mente. Fazem parte do meu receituário para a salvação das almas.

Os Ombros Suportam o Mundo - Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sinuca Com Walter Brasília e Toquinho


Walter Silva, também conhecido como Walter Brasília, é um sujeito incrível. Sinuca, violão e nos tornamos amigos. Em pouco menos de um mês fizemos uma amizade de mais de trinta anos. Como é possível? Simples. Walter é uma pessoa tão agradável, que em duas horas de conversa, você já se sente amigo de dois anos e, após alguns dias, você já é amigo de décadas. E assim tem sido. Duas vezes por semana nos encontramos para jogar, conversar e, como não poderia deixar de ser, tocar violão. 
Walter é um exímio jogador cercado por outros tantos grandes jogadores e, principalmente, grandes seres humanos. O que ele faz numa mesa de sinuca não se escreve, é preciso ver. É possível passar horas e horas admirando seu show. E tudo feito com uma humildade sem tamanho. Como se fossem óbvias as jogadas mais mirabolantes e inimagináveis.
Na última sexta feira, lá estava o Walter com um de seus inúmeros violões. Um violão espanhol de 1985. Maravilhoso. Uma sonoridade agradabilíssima. Toquei, toquei, toquei.... e aí ele me avisou: "Hoje o Toquinho vem aqui e eu vou dar esse violão de presente a ele." E assim foi. Toquinho tinha show marcado para as 11 da noite, mas como é um apaixonado pela sinuca, resolveu dar umas tacadas antes. É a simplicidade em pessoa. Chegou, dedilhou um pouco o violão que acabara de receber de presente e, emocionado, pediu que o amigo Walter autografasse o instrumento. As fotos estão aí. A vida é realmente bela!
Osias Canuto e Toquinho











segunda-feira, 26 de março de 2018

Kaori Muraji


That´s the girl! Agora estamos falando de gênio. Kaori Muraji é uma violonista japonesa que, além de grande instrumentista, é também uma excelente arranjadora. O violão do vídeo é um José Romanillos.




sexta-feira, 23 de março de 2018

Hellen

Foram vários dias de estúdio entre gravações e filmagens na companhia de grandes músicos. E o resultado desse meu primeiro trabalho como guitarrista não poderia ficar melhor. Música e letra de minha autoria.

Osias Canuto - Vocal e Guitarra
Bruno Wambier - Teclados e Piano
Marcelo Sá - Guitarra
Macarra - Baixo
Daniel Oliveira - Bateria

Marcelo Sá - Produção Musical
Ricardo Ponte - Mixagem e Masterização
Caio Cortonesi - Produção de Vídeo
Agradecimentos - Igos Sant'Anna, Adolfo Alvarenga, Chris Zwart e Jim Cipolla



quinta-feira, 22 de março de 2018

A Morte do Motoboy





O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
um verso vermelho e veloz;
um verso branco e triste.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
agudo como os seios de fulana,
vivo como a hóstia consagrada.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
e por mais que sangre o sangue,
não paralisa o trânsito, não eterniza o morto,
não interrompe a vida na cidade acelerada.

quarta-feira, 14 de março de 2018

A Oração e a Ligação


Cristo - Salvador Dalí
O rapaz acorda assustado com o telefone tocando em plena madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. 
– Huuumm. Que foi? 
– Você não me conhece. Quer dizer.... todo mundo me conhece.... mas nunca nos falamos. Quer dizer.... já nos falamos..... Quer dizer... você falou. Não, não....  você rezou. Espera aí... Tô fazendo confusão! Todos falam comigo, eu ouço, mas talvez jamais alguém tenha me ouvido. Aaahhhh! Você entende o que eu to dizendo, né?
Sim, entendo. 
Então vamos ao que interessa: teria jeito de você fazer uma versão nova do Pai Nosso? 
– Eu? Mas por quê? O que tem de errado? 
Não tem nada de errado. Apenas cansei de ouvir a mesma cantilena repetidas vezes. E tem também o fato de que você escreve esse monte de insanidade nesse seu blog, daí  eu pensei em te dar uma chance de produzir algo útil ao menos uma vez na vida. O que acha?
Pode ser. Mas não sei se devo. E se você não gostar? 
Fique tranqüilo. Apenas faça. 

Dias depois, o telefone toca novamente e a voz vai direto ao assunto:
  E então? Tá pronto? 
Sim. Olha... eu acabei mesmo foi retirando os excessos. Ficou assim: PAI NOSSO, SEJA FELIZ POR TODA A ETERNIDADE! AMÉM!

(Silêncio) 

Muito bom! Muito bom! É a primeira vez que alguém se lembra de mim e me deseja felicidade. 
Pois é. Eu pensei que, se ao invés de ficar com essa mania egoísta do ser humano de pedir, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje, livrai-nos do mal, perdoai nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação”, blá, blá, blá.... blá, blá, blá, seria melhor que apenas desejássemos sua felicidade, e nada mais. 
Claro, claro. É isso mesmo. Ninguém jamais pensou nisso: desejar minha felicidade. Estou muito emocionado. Obrigado. Já vou decretar a alteração.

Uma semana se passa e novamente o telefone toca na madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. Lembra de mim? Aquele do Pai Nosso?.... Brincadeira! Você ficaria magoado se eu voltasse a versão original da oração, com aquela coisa toda de pedir, pedir, pedir? 
Não. Claro que não. A oração é sua.
É que descobri que a vida só faz sentido se tenho todos aqueles humanos pedidos para atender. Olha.... os homens sempre foram essa estrutura equivocada e perdida na vastidão do universo, e eu não me sentiria bem em abandona-los.
Entendo. 
Que bom! Não fica mesmo chateado? 
Não. 
Então, tchau. 
Tchau.
Ei?
O quê? 
Você não quer pedir nada?.... Brincadeira!
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 5 de março de 2018

O Violão do Mestre Gamela

Mestre de vários músicos de Brasília como Rosa Passos e Nelson Faria, Gamela tinha um método peculiar de ensinar violão.  Dava aula ensinando por repetição os arranjos que fazia de várias composições da bossa nova. Era ali, olho no olho, dedo no dedo e você aprendia a tocar os mais sofisticados e belos arranjos.
 Gamela era engraçadíssimo e tinha um mau humor folclórico quando falava de música e músicos que não gostava. Sua frase preferida era: "se eu acho Bethoven mais ou menos, imagina o que não estou achando disso." Imaginem eu, que sou apaixonado por Chico Buarque, que Gamela detestava, tinha que aguentar durante as aulas.
 Numa minúscula quitinete situada na 105 norte, passei boa parte de minhas noites tocando, conversando, rindo, discutindo e aprendendo com o mestre. Corcovado, Eu Sei Que Vou Te Amar, Canto de Ossanha, O Barquinho, e por aí vai. Enfim, fica aí abaixo, no arranjo de Manhã de Carnaval, minha homenagem ao grande mestre.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Encarando Ali

Quem gosta de boxe precisa assistir ao documentário “Encarando Ali” (2009), de Pete McCormack. 
Conta a vida e carreira de Muhammad Ali por meio de depoimentos de seus principais adversários. George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton, Larry Holmes, George Chuvalo, Earnie Shavers e Leon Spinks, todos narrando os detalhes de suas lutas contra Muhammad Ali.
Para quem assiste o vídeo fica claro que nunca existiu um peso-pesado tão inteligente quanto ele, capaz de empregar táticas suicidas para superar adversários mais fortes, como na histórica luta contra George Foreman no Zaire, em 1974, quando apanhou por vários rounds só para tirar a energia de Foreman, antes de nocauteá-lo.
No filme, Foreman conta que Ali, no fim de um dos rounds, olhou para ele com uma expressão irônica em que parecia dizer: “Aha, te enganei. Agora vou acabar com você.”
Mas Ali não é o único grande personagem do filme. As histórias de vida de vários dos entrevistados são impressionantes.
É o caso de George Chuvalo, um peso-pesado canadense que perdeu duas vezes para Ali por pontos e que nunca foi nocauteado em mais de 90 lutas e 23 anos como profissional.
Chuvalo fala sobre a miséria de sua infância e relata sua trágica vida familiar, quando perdeu três filhos e a esposa para as drogas (a mulher e um dos filhos cometeram suicídio).
Os depoimentos são todos de engrandecimento a Ali, mas os entrevistados também não deixam de apontar suas possíveis fraquezas.
Chuvalo, por exemplo, garante que Sonny Liston entregou a famosa luta de 1965 contra Ali (diz a lenda que Liston trabalhava para a máfia de Chicago, que havia apostado pesadamente numa vitória de Ali).
Joe Frazier lembra a humilhação que sentiu com as provocações de Ali na imprensa, que feriram seu orgulho e o motivaram a vencer Ali na “Luta do Século”, em 1971.
Um dos depoimentos mais comoventes é o de Ron Lyle. Preso por assassinato ainda adolescente, Lyle aprendeu boxe na prisão e tornou-se um dos pesos-pesados mais temidos de sua época.
Lyle foi um dos únicos três homens a derrubar George Foreman e perdeu para Ali por nocaute técnico, numa luta que vencia por pontos e cuja interrupção foi motivo de muita polêmica.
Apesar disso, Lyle parece grato a Ali: “Eu vim da prisão, quase morri, mas tive a chance de lutar contra o maior campeão que já existiu. Estar frente a frente com Ali mudou minha vida.”

Assista ao Trailer do documentário no link abaixo:

http://www.facingalimovie.com/



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O Grande Livro das Drogas


A porta estava trancada e movia-se numa dança frenética, enquanto mulheres lindas tentavam puxar os rapazes de volta ao centro do turbilhão. Led Zeppelin a todo volume. “Since I've been loving you, I'm about to lose my worried mind”. O pequeno apartamento estava lotado. A suprema trilogia: Sexo, Drogas e Rock and Roll. Era uma espécie de Woodstock indoor. Entre os presentes, Sid Vicious, Ornella Muti, Angelina Jolie e Jimmy Page, que nesta época estava morando em Lençois, na Chapada da Diamantina - Bahia. Mas, ao mesmo tempo em que a agitação aumentava, as evidências de que algo daria errado também se mostravam maiores. Os anfitriões, por fim, conseguiram livrar-se do assédio sexual das lindas mulheres presentes e saíram de bicicleta. Mal começaram a pedalar e já se depararam com o teatrólogo Shakespeare.
- Você está certo disso?
- Sim. É ele. Conheço Shakespeare e toda sua obra.
Não havia dúvida, era ele: Shakespeare. Mas o que estaria Shakespeare fazendo num domingo à tarde na 408 Sul?
Na época era moda o famoso título “O Grande Livro”. Existia de todo tipo: O Grande Livro das Aves, O Grande Livro dos Carros, O Grande Livro do Futebol, etc. Dispostos a ficar milionários, ou ao menos mais alucinados do que já eram, decidiram os dois amigos escrever O Grande Livro das Drogas. Decisão tomada, mãos à obra.
Em um pequeno espaço de tempo fizeram uso de uma série de produtos mais ou menos lícitos, e outros tantos absolutamente ilícitos. Para finalizar, um comprimido de Neosaldina e uma dose de Biotônico Fontoura. Após a ingestão destes ingredientes literários e alucinógenos perceberam que as paredes do pequeno apartamento começaram a movimentar-se. Mulheres nuas executando a dança do acasalamento. A festa estava começando e os convidados apareciam de todas as partes. Entravam pela janela, subiam pelo ralo da pia, emergiam do vaso sanitário.
Os vizinhos já estavam acostumados com as eternas confusões daqueles dois. É mesmo provável que alguns deles morressem de inveja e desejassem participar, mas, desta vez, a coisa parecia fora de controle. Tanto era assim, que os amigos pegaram suas bicicletas e fugiram imediatamente. Foi neste momento que se depararam com Shakespeare. Aproximaram-se e perguntaram o que ele estava fazendo ali na 408 Sul. Para surpresa de ambos, o genial autor respondeu que estava encenando a primeira peça do Grande Livro das Drogas. Incrível!!! O livro mal começara a ser escrito e já estava sendo usado por ninguém menos que Shakespeare. Os amigos se abraçaram emocionados com o sucesso imediato e a possibilidade clara de incontáveis lucros. Vários artistas circulavam pela quadra agindo sob as ordens do genial autor. Uma confusão descomunal. Novamente os dois rapazes foram obrigados a fugir.
Pedalaram pelas quadras da Asa Sul atravessando desertos e pântanos, até que se depararam com um grande rio que tinha inundado a avenida W3. Carros e corpos passavam diante de seus olhos sendo arrastados pela correnteza. Ficaram por um tempo em estado letárgico vendo o rio correr, até que um deles lembrou-se da bíblica travessia do Mar Vermelho e resolveu tentar algo semelhante. Deu certo. Atravessaram a avenida contando, dizendo e maldizendo os corpos que passavam carregados pelas águas. Naquele domingo, no distante mundo de uma Brasília já perdida, seguiram os dois amigos pedalando e vivendo aventuras inenarráveis e irrecuperáveis pela memória deste que vos escreve. Lembro apenas que, esgotados por tantas aventuras, pararam na Pizzaria Dom Bosco e se alimentaram fartamente enquanto aguardavam que o mar secasse.
De volta a 408 Sul, Shakespeare tinha ido embora com toda sua trupe, e O Grande Livro das Drogas ficaria para sempre interrompido no primeiro, único e maravilhoso capítulo. Até porque, convenhamos, é pouco provável que os autores sobrevivessem a um segundo episódio desse estrondoso sucesso da indústria narco-literária.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O Manifesto


Meu período de vida como estudante da Universidade de Brasília foi um dos melhores que vivi. Ali vi, ouvi e vivi coisas brilhantes e também absurdas. E lá ia eu caminhando pela Ala Norte do Minhocão quando fui abordado por um estudante de História. Trazia uma folha de caderno nas mãos, um semblante tenso, e grave rosto. Falou-me no tom cerimonioso de quem trata de coisas sagradas. A folha pesava em suas mãos como as palavras de Deus ao ouvido de Moisés. Estava ali para conduzir a salvação de um povo. Meus olhos e meus ouvidos não criam no que viam e muito menos no que ouviam. O sujeito estava me pedindo para assinar nada menos do que um manifesto pelo fim da guerra na Bósnia. Sim, ele queria acabar com a guerra na Bósnia. Não era um manifesto contra o reitor da Universidade, contra os altos preços da cantina ou contra a falta de segurança no estacionamento do Minhocão. O que pretendia aquele papel era, simplesmente, acabar com uma guerra que envolvia os sérvios, os croatas e os bósnios; que era o conflito mais prolongado e violento da Europa desde o fim da II Guerra Mundial; e que em pouco mais de três anos causara cerca de 200.000 vítimas entre civis e militares e 1,8 milhões de deslocados.
A UnB é uma local repleto de mentes brilhantes, de mentes loucas e de mentes medíocres que se acham brilhantes. Sendo que esta última categoria é predominante e, neste caso, eu estava dialogando com um de seus exemplares. Óbvio que assinei. Eu não podia decepcioná-lo. Uma assinatura, um nome e uma matrícula inventados na hora. Antes de partir me olhou novamente com gravidade e agradeceu minha compreensão e adesão. Disse que com aquele gesto eu tinha demonstrado o quanto era inteligente e engajado às causas do meu tempo. Diante de tal cena pensei comigo mesmo: Que merda! Deus tenha piedade deste pobre idiota! E prossegui imaginando os soldados sérvios e croatas recebendo aquele manifesto assinado numa folha de caderno suja e amassada, com o nome de quarenta estudantes universitários da UnB:
- Comandante, veja isso! Chegou agora do Brasil e nos conclama a parar imediatamente com a guerra!
Krajisnik, comandante das tropas sérvias e um dos responsáveis pelo maior massacre de seres humanos depois da segunda grande guerra, olha o papel e pensa com seus botões: Курвин сине! Заслужио сам! Ou seja: Puta que o pariu! Eu mereço! 


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Realidade X Imaginação

Meu amigo Luciano é um jogador de sinuca fantástico, porém tímido. Jamais consegui ver suas grandes jogadas. As mesmas só ocorrem quando resolvo ir ao banheiro. Vou ao banheiro com uma dianteira de 30 pontos e a bola 4 como “bola da vez”. Quando retorno, a bola 6 é a “bola da vez” e ele está 7 pontos a minha frente. Incrível. Luciano relata com absoluta precisão todas as maravilhosas jogadas que executou na minha ausência, e que possibilitaram a sua virada espetacular no placar. Fico encantado ouvindo a narrativa das geniais tacadas que eu nunca consigo ver, tudo em virtude da minha humana necessidade de ir ao banheiro. 
Se jogarmos sinuca durante uma noite toda e eu não for ao banheiro, ele não ganha uma. Mas, basta eu me demorar alguns minutos no lavatório, e o milagre acontece. Estranho é que o jogo que consigo ver nele não tem qualquer vestígio do jogo narrado por ele, ou seja, Luciano não se parece nada com Luciano. Os princípios lógicos de Aristóteles, de Identidade e de Não-Contradição, não valem no caso dele. Quando estou presente e vejo sua dificuldade em matar bolas que simplesmente estão implorando para cair, não consigo imaginar o exímio jogador que faz tacada com uso de efeitos, tabelas etc. E foi a partir daí que decidi colocar uma câmera escondida em minha casa, para poder filmar as tais jogadas no momento em que eu fosse ao banheiro.
Convidei-o para uma partida e executei meu truque. Depois de ganhar duas partidas, e estar ganhando mais uma, fui ao banheiro. O milagre se deu: retornei e já estava perdendo. Ele me narrou todo o ocorrido. Como sempre, fantástico. Mas desta vez, sem que ele soubesse, eu tinha tudo filmado, e poderia apreciar o talento do tímido amigo. Assim que nos despedimos corri para a filmadora como um doente aos braços de Jesus. Porém, uma das magias da narrativa é, na maioria das vezes, sua infinita superioridade sobre a realidade. Então, assistindo ao filme comecei a me questionar sobre a grandeza do imaginário mediante certas realidades. Lembrei-me de quando assisti ao filme Germinal, feito sobre a obra do escritor francês Émile Zola. Como tinha lido o livro centenas de vezes e já tinha criado todos os personagens em minha mente, fiquei arrasado com a versão do diretor Claude Berri. A minha versão era muito melhor que a dele. E foi exatamente o que aconteceu quando assisti a tal filmagem da sinuca. Luciano, o grande jogador que habitava meu imaginário, não merecia aquelas cenas terríveis.  Cenas chocantes, onde um sujeito corria desajeitado em volta da mesa colocando as bolas, com as mãos, dentro das caçapas. Eu precisava livrá-lo deste vexame. Apaguei tudo e fingi que nada tinha assistido. Apaguei e voltei ao passado, onde o mundo era muito mais glamouroso. Onde meu amigo Luciano era tão somente um gênio tímido da sinuca.
Hoje, jogo com muito mais tranquilidade contra meu talentoso amigo. E até invento umas idas ao banheiro. Tudo para não perder as fantásticas narrativas de suas jogadas. 
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Doutor Marcelo, O Diário do Inferno

Clique aqui e assista "Doutor Marcelo, O Diário do Inferno"
Trata-se de uma história incrível, que dificilmente aparecerá de novo na vida de um jornalista para contar. A saga do médico Marcelo dos Santos, de 27 anos, que trabalhou durante sete meses na Cracolândia, em São Paulo, e morreu subitamente.
Um menino pobre, que estudou em escola pública e que, com a ajuda da tia, decidiu fazer medicina na faculdade mais concorrida do país, a USP. Admirado pelos colegas, que o consideram genial e empurrado pela jovem esposa, Marcelo conseguiu terminar o curso.
Estava entediado, porque trabalhava em um hospital público na periferia e passava boa parte do tempo fazendo atestados médicos para as pessoas justificarem suas faltas no trabalho até que, um dia, recebeu um convite inusitado: trabalhar numa zona de guerra.
O jovem médico mergulhou de cabeça naquela realidade cruel e desumana. Em várias situações arriscou a vida, mas aos poucos conquistou a confiança de usuários e traficantes. Passou a ser chamado para ver doentes nos buracos, cubículos onde viviam os doentes dentro das ruínas, um cenário desolador.
Doutor Marcelo produziu um diário que retrata a vida dos usuários de crack na maior e mais rica cidade da América Latina. O que o jovem médico relatou é assustador. Pessoas sem as mínimas condições de higiene, abandonadas, torturadas, abusadas, coagidas...
Começou a se revoltar com a ausência do Estado e a mão pesada dos homens da Lei. Brigou, denunciou e pediu ajuda, aqui e fora do país. Pouco conseguiu. Precisou recorrer à presidência da República, para ter sua voz ouvida pelas autoridades. Mas não deu mais tempo.
O documentário foi produzido pelos jornalistas Marco Aurélio Mello e Gustavo Costa. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Homem Cansado


Chamam-me José Feliciano Bezerra. Nunca alguém chamado José Feliciano Bezerra conseguiu ser algo na vida. Minha mãe vai morrer. É a culpada disso. É culpada também por eu ter metade da cara deformada por uma mordida de cachorro. Queria não precisar matá-la, mas não tem jeito, vai ter que morrer. Sou um homem justo.
Ontem fiz vinte e oito anos. Não consigo ver isso no espelho. Não consigo ver nada no espelho. Não reconheço esse rosto deformado e não gosto que fiquem me olhando. Poderia ter matado inúmeras pessoas apenas porque ficaram me olhando. Mesmo as mulheres bonitas, poderia ter matado todas. Olham-me e sentem nojo, e quando encontram seus maridos correm para abraçá-los e vêem seus rostos perfeitos, podem acariciá-los e sentem-se felizes, pois viram um homem com um rosto horrível e tinham medo que eles também pudessem ter aquele rosto, mas já passou, foi só um pesadelo. Foi só um pesadelo. Ainda deixo um bonitão desses com a cara em pior estado que a minha. Na vida existem duas coisas que me irritam profundamente: uma é a vida, a outra não sei o que é.
Todo José Feliciano Bezerra é nordestino, pobre e tem uma peixeira escondida sob a camisa. Não sou exceção.
Durante todo o dia vaguei pela cidade, sem destino, apenas alimentando meu ódio. Quando veio a noite dirigi-me até um bairro do subúrbio, freqüentado por prostitutas, viciados, mendigos e todo tipo de miseráveis. Fazia algum tempo que sentia vontade de visitar o homem que previa o futuro. Meus amigos deixavam lá muito dinheiro e voltavam cheios de esperança. Da minha parte, queria apenas confirmar que o tal vidente era na verdade um charlatão.
O sujeito me recebeu cheio de salamaleques, disse-me que não estava mais atendendo naquele dia, mas que abriria uma exceção. Pareceu-me demasiado delicado. Pior para ele. Sou um homem sério.
Sentei-me diante dele numa mesa redonda onde havia uma bola de cristal. Embora estivéssemos bem próximos, quase não conseguia distinguir seu rosto na pequena sala mal iluminada, mas, por baixo da mesa, suas pernas tocavam as minhas a todo instante. Desagradável. Ele não tinha noção do perigo que corria. Tudo me deixava bastante irritado, eu não via a hora de sair dali.
A criatura fez um pequeno discurso sobre o meu passado. Falou em pobreza e sofrimento. Nenhuma novidade. O presente foi a mesma história. Então, veio o futuro, e ele teve o descaramento de dizer que eu seria muito feliz. Dizia isso com naturalidade, como se fosse algo realmente possível. Meu ódio acumulado começou a borbulhar. Perguntei se eu teria bastante dinheiro, se poderia comprar casas, carros, se teria mulheres bonitas como as que eu via nas ruas, nas revistas, na televisão, e hoje estaria com uma e amanhã com outra, porque eu serei rico e rico faz o que quer, e manda prender e arrebentar, manda tomar no cu, manda trazer outro whisky, manda passar mais tarde que no momento ele está ocupado, manda qualquer coisa, porque quer que se foda tudo. A todas as perguntas ele respondia entusiasmado que sim. Era a gota d'água, a grande prova da farsa. Explodi. Saquei a peixeira e enfiei-a num golpe violento, de baixo para cima, por trás do queixo do ordinário. A lâmina penetrou fria e cega, devorando tudo. Só parou quando topou a parte superior do crânio, puxei-a de volta. Por um momento fiquei olhando o corpo ensangüentado caído sobre a mesa, depois limpei a faca numa cortina e saí meio enojado, com vertigens e ânsias de vômito. Sou um homem sensível.
Quando deixei o prédio onde morava o vidente, era quase meia noite. Fiquei algum tempo parado na calçada diante do edifício, imaginando o que fazer, e resolvi ir até uma boate. Era preciso tomar alguma coisa para poder raciocinar com mais calma. Ao menos enquanto durasse a escuridão eu permaneceria seguro. A noite sabe guardar segredos sobre crimes e romances que só são passíveis de serem descobertos ao amanhecer.
Caminhei calmamente pela rua em direção à boate. Não estava longe. Na porta, o leão-de-chácara olhou-me submisso. Já reparei que a minha cara deformada me deixa com um aspecto meio sinistro, aspecto de assassino ou coisa parecida. Novamente, tinha eu mergulhado num ambiente sombrio. Gosto disso.
O lugar era pequeno e estava vazio. Doze mesas cercavam uma pequena pista de dança que também servia de palco para shows de strip-tease, que não demoraram a começar. Uma mulher entrou na pista e iniciou uma dança desajeitada, que ela pretendia ser sensual. Logo em seguida, ao lado dela, surgiu um anão executando um número de malabarismo. A pequena criatura movia-se com agilidade em torno da dançarina, procurando chamar-lhe a atenção, e ela, fingindo-se seduzida, jogava-lhe em cima as peças de roupa que ia retirando. Os dois eram horríveis, mas simpatizei com ambos. Cheguei mesmo a sentir atração física pela mulher. Ela percebeu, pois se insinuava dançando bem próxima à minha mesa. Tão logo terminou o show, veio em minha direção e pediu para sentar-se comigo. Tinha uns olhos tristes. O resto do corpo não importa, era nos olhos que guardava todo mistério. Juntos, tomamos um litro de cachaça e nos divertimos conversando coisas agradáveis. Em meio a vários assuntos íamos desfiando confissões acerca de nossas vidas. Enquanto ela falava, eu ia brincando com sua mão, com os anéis, pulseiras, as unhas pintadas. A brincadeira foi me incendiando de desejos e logo a convidei para dançar. Durante três músicas suaves, que tocaram uma seguida da outra, estivemos abraçados. Sussurrei-lhe ao ouvido que eu não estava me concentrando direito porque a música era americana. Podia ser que nós estivéssemos ali, carinhosamente entrelaçados, e o cantor estivesse dizendo que nós éramos dois merdas que não entendiam inglês, mas ficávamos dançando enquanto ele nos xingava. Ela sorriu e disse que eu não deveria pensar nisso. Enfim, acabei cedendo, e apertei-a um pouco mais contra o peito. O suave perfume que subia do seu pescoço me fez esquecer tudo.
Pressenti que a noite terminaria em sexo, e isso logo se confirmou. Disse-me que quase não conseguia fregueses porque era feia. Concordei. Aceitou ir para a cama comigo sem que eu lhe pagasse nada. No quarto que alugava, logo acima da boate, fizemos um amor violento e intenso. Quando terminamos, fiquei analisando-a deitada de bruços. Era realmente muito feia. Pensei no quanto deveria ser triste para ela ser tão desprezada. Carinhosamente beijei todo seu corpo, e por longo tempo fiquei a afagar seus cabelos. Confessou-me que nunca havia sido tratada com tanto carinho, e que apesar de me considerar feio, estava satisfeita ao meu lado. Fiquei feliz. Com cuidado, para não assustá-la, peguei a peixeira que estava ao lado da cama e docemente fiz com que penetrasse em suas costas macias. Seu corpinho frágil estremeceu num suspiro. Naquela noite o amor lhe dava a recompensa por tantos anos de submissa dedicação. Sou um homem romântico.
Ganhei a rua já perto do dia clarear. Só então me dei conta de que ainda não havia me alimentado desde o almoço. Era hora de voltar para casa.
Longamente caminhei pela cidade vazia. Acho que eu seria feliz se fosse um homem rico. Não sei se é verdade. Vai ver que todo pobre pensa que seria feliz se fosse rico. Foi perdido nesses pensamentos que cheguei em casa. Agora me encontro diante de minha mãe que toma seu café lentamente. Esperarei com paciência que acabe de comer para depois matá-la. Penso na prostituta. Como era mesmo o nome dela? Não me lembro, mas isso não importa. Vejo-a correndo em minha direção. Vem sorrindo e vai me abraçar, e tem um sorriso triste, e braços tristes, e pernas tristes, e todo seu corpo combina com seus olhos tristes. O vidente também corre em minha direção e quer me pedir alguma coisa, e pede desculpa por ter enganado tanta gente, por ter inventado tanta mentira, e quer que eu ajude os mentirosos, quer que eu os mate. Explico-lhe que não tenho condições de fazer isso, que eles são muitos, e eu apenas um. Ele me olha desapontado e desaparece. Sinto-me impotente. Diante de mim o rosto de minha mãe multiplica-se e torna a ser um, e novamente multiplica-se e torna-se um, num vaivém infinito. Sorrio. Minhas pálpebras têm encontro cada vez mais prolongado. Sou um homem cansado.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Ladrões de Ontem, Hoje e Sempre - O Castelo de Azay-le-Rideau


Longe do Brasil, imaginei eu que também estaria longe dos habituais escândalos promovidos por nossa folclórica fauna política. Mas qual não foi minha surpresa ao me deparar com o senhor Gilles Berthelot, um político francês que não faria feio diante de um Sérgio Cabral ou Eduardo Cunha.
Responsável pelas finanças no reinado de Francisco I de França, Gilles Berthelot adquiriu o castelo Azay em 1510. A partir daí procedeu a reconstrução do local e o transformou numa encantadora residência de gosto italiano. O seu esplendor demonstra a nobreza obtida por seu proprietário no cargo de notário e secretário do rei.
Após casar-se com Phillippe (nome comum às mulheres na época da renascença) Lesbahy, herdeira das terras em redor, Bertchelot alavancou sua próspera carreira no reinado. Tudo muito parecido com os modernos ladrões do nosso Brasil, ele era ajudado por Semblançay, superintendente das finanças do reino, que era um parente seu. Quando este último é acusado de desfalques e executado, Berchelot foge. 
Em 1537, o rei Francisco I toma o magnífico castelo e entrega a seu companheiro de armas, Antoine Raffin.
Mas do castelo de Azay-le-Rideau, deixemos ao passado toda essa história. O que realmente interessa nele é sua beleza plantada numa magnífica paisagem.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

O Dinossauro




Entra na tradicional confeitaria arrastando-se como o Velho Crepuscular de Dalí. De aparência suave e ultrapassada como um dinossauro. Era isso o que eu queria dizer: algumas pessoas já foram vencidas pelo tempo e ainda não se deram conta. E não é questão de idade, que esta chega para todos, mas de conceito. Estava conceitualmente vencida, em ângulos, gestos, vestes e pensamentos. Vivia num tempo distante e perdido.
Aquela grã-fina não era mais possível nem na capa da extinta revista O Cruzeiro e, no entanto, comeu sua torta de chocolate e tomou seu café como se fosse a mais contemporânea das criaturas.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

JK e as Bandeiras Amarelas

Esses dias estive pensando acerca de um mal que me trucida os nervos há tempos: quem é o responsável ou, neste caso, irresponsável, por aquele conjunto desarmônico, pavoroso e criminoso de bandeiras amarelas em torno do memorial JK?
Passo diariamente em frente ao monumento e tento não olhar. Finjo que não existem, mas minha indiferença não é capaz de promover sua desmaterialização. Permanecem abjetas e feéricas, no mesmo lugar. Pobre Niemayer, pobre Juscelino! O que fizeram para merecer aquilo? E por que a crueldade tinha que vir numa quantidade tão grande? Não bastava uma? Não, são incontáveis. Como incontáveis as maldições que já roguei contra o idealizador desta ofensa. Medonhas! E para completar o cenário do inferno tem também um toldo branco e um conjunto de sete enormes bolas de ferro!  
Confesso que já cheguei a pensar em convocar a sociedade organizada, e esteticamente ultrajada, para destruir aquilo tudo. Se um dia essa parafernália toda sumir eu devo ser investigado pelo benfeito. É grande a chance de ter sido o responsável pelo desagravo à Niemayer e Juscelino. Mas, até lá, vou treinando minha capacidade de abstração e tento enxergar somente o memorial maravilhosamente limpo e branco, como na época de sua inauguração. 
A vida é realmente bela! As bandeirolas, não!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Retrato de Lázaro em 5 Mortes Inúteis

I - Uma bala arrebenta o vidro da janela, e os estilhaços, chuva cortante e fina, ferem os olhos do menino que, num canto da sala, não demonstra susto com o barulho dos tiros vindos da rua. A mãe aperta contra o peito a criança predestinada a sucessivas mortes. Não chora. Não tem lágrimas. Lázaro Dias, que então contava três anos de idade, fica cego de um olho e morre pela primeira vez.

II - Amanhece e o caminhão que traz alimento e remédio para a população aponta na curva ao longe. Há muito, sede e fome tornaram-se parte do dia-a-dia. Cerca de trinta pessoas aglomeram-se a beira da estrada. O caminhão aproxima-se e pára à distância de dez metros. A multidão corre em sua direção. De dentro dele saltam seis homens armados de metralhadora, e trazem a morte ao invés do socorro. Um adolescente, que aprendeu a enxergar com um único olho, corre por entre as árvores como se tivesse fôlego e visão de sete homens. Pára depois de muito tempo. Escuta. Silêncio. Tem o braço esquerdo devorado por uma rajada de metralhadora. Aos quinze anos, Lázaro Dias morre pela segunda vez.

III - Os dois rapazes seguem em silêncio, quase sem pisar o chão. O da frente, embora cego de um olho e com apenas um braço, é um dos guerrilheiros mais experientes. Homem de muitas mortes. Todas necessárias e a contragosto. A guerra é uma miséria que mata iguais pela honra e glória de poucos. Conduz o companheiro por uma região que também lhe é estranha. Depois de muito caminhar param para um breve descanso. O que tem um único braço afasta-se um pouco. Seus ouvidos estão habituados ao inaudível. O chão é todo coberto de folhas. Morde lhe violentamente uma das pernas. O amigo corre em auxílio, mas a armadilha é de força tamanha que não pode ser aberta. A perna vai ser amputada. Aos vinte e seis anos, Lázaro Dias morre pela terceira vez.

IV - O homem com cara de bobo pede para falar com o comandante e é encaminhado à sua presença. Apoiado numa muleta, o comandante levanta-se para ouvir o estranho. Dois guerrilheiros fazem guarda bem próximos. O homem bobo sorri e fala coisas sem sentido. Informações que nada informam. O calor é intenso. Abana-se, coça a cabeça, põe a mão sob a camisa. O comandante, desconfiado, se joga ao chão. O homem estranho consegue atirar apenas uma vez. Os dois guerrilheiros o fuzilam. O comandante Lázaro Dias, aos cinqüenta e seis anos, tem o maxilar estraçalhado pela bala, e morre pela quarta vez.

V - A paisagem na janela é suave. O homem recebe a brisa que vem de longe, de lugares que nunca foi. Os dois netos brincam em paz no jardim. A guerra civil que maltratou o país por décadas, agora é só lembrança. O homem sente uma suave dormência percorrer lhe a espinha. Anda em direção ao sofá apoiado na muleta. Ao deitar-se, sente chegar o sono mais calmo de toda sua difícil vida. Ainda toma um último gole de vinho. Aos noventa e três anos, o herói de guerra Lázaro Dias sobe aos céus nos braços de um anjo.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018