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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Assassina No Cartaz de Shopping


Apaixonou-se pela moça do cartaz. Encontravam-se sempre das 10 da manhã às 10 da noite, ou seja, no período de funcionamento do shopping. Viviam um amor calmo, sem cobranças. Ela, estampada na enorme parede da entrada principal, estava sempre escandalosamente linda. Ele, por vezes alegre, por vezes tristes, mas sempre apaixonado. Os espasmos de tristeza vinham por conta de uma ponta de ciúmes, quando via que alguns homens paravam diante dela e teciam comentários. 
Como trabalhava numa loja bem em frente ao cartaz, passava longas horas trocando olhares com ela e comentando com um amigo: 
- Viu como ela me olha? É sempre assim. 
- Você está louco? Ela não está te olhando. Olha para qualquer um que esteja olhando para ela. É uma questão de ângulo. Isso é apenas um cartaz! 
- Não. Não é. Compreendo sua inveja por ela não olhar para você. Que acha de eu chamá-la para jantar hoje?
- Isso. Perfeito. Se ela for, eu te dou todo meu salário deste mês.
- Mas não sei se devo.
- Deve. Pelo amor de Deus, faça isso! Chame-a para ir a sua casa, para jantar, para beber e depois ir para a cama com você. Vai ser incrível!
 - Não. Não chamarei. Você está sendo grosseiro. Sinto que ainda não é o momento. 
Assim se passavam os românticos dias do lunático, até que o cartaz sumiu. O amigo, que sempre chegava mais cedo para o trabalho, aguardou o apaixonado, feliz por poder lhe dar a péssima notícia. Ele chegou, cumprimentou a todos sem olhar para a loja do cartaz. O amigo não podia esperar pelo momento da decepção. Mas antes que pudesse dizer algo o outro falou:
- Estive pensando e decidi terminar o namoro. Acho que já não somos tão felizes como no início. Vou dizer isso a ela hoje.
- Não, você não vai dizer. A fotografia não está mais aí. Vê? Era somente uma fotografia e foi retirada. 
Sem ouvir o que o outro tinha dito, falou: 
- Pobre moça, deve ter percebido o que aconteceria e partiu. Melhor assim. Poupa-nos do desgaste de uma despedida. 
Pouco tempo depois surgiu novo banner com a mesma modelo. O amigo temeu pelo pior. E o pior sempre vem. - Você viu como ela me olha?
- Que história é essa? Isso é um banner. Um banner. Ela não está te olhando. Ela não está olhando pôrra nenhuma. É apenas uma foto! 
- É por isso que as mulheres te desprezam. Você vê nelas apenas uma imagem. Eu identifico nelas o perfume, a poesia, o desejo, a vida.
- Ora, você é um maluco! Quê vida? Quê poesia? Isso é uma imagem. Uma imagem!
Após uma semana, chega o chefe da loja e dá a notícia da morte por suicídio. O amigo, arrasado, pergunta:
- Mas por que ele fez isso?
- Dizem que deixou um bilhete relatando uma desilusão amorosa. A polícia esteve aqui fazendo perguntas e está procurando alguma mulher com quem ele tenha se relacionado recentemente. Você sabe de alguma coisa?
O amigo olha para o cartaz diante da loja e diz:
- Não, não sei de nada. Mas creio que não vão encontrá-la.
- Por que você diz isso? 
- Sei lá, apenas uma suspeita. 
Olha novamente o cartaz e pensa: Muito estranho esse jeito que ela me olha.
A partir de então, seguindo os passos do amigo morto, começou a namorar a moça do cartaz. Mas tomava muito cuidado, pois, além de linda, ela lhe parecia fria e calculista. Talvez fosse uma assassina profissional.
Um mês se passou antes que fosse encontrado morto. A polícia não encontrou motivo aparente para o suicídio. Mas o chefe alertou para a possibilidade de algum amor não correspondido.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Crônica de Um Amor Louco

Crônica de Um Amor Louco é o primeiro volume da obra Ereções, Ejaculações e Exibicionismos, de Charles Bukowski. Nascido na Alemanha e criado nos Estados Unidos, Bukowski teve uma vida completamente louca. Por conta de algumas inflamações que deixaram marcas por todo seu corpo, sofreu psicologicamente muito mais do que o normal. Se é que isso é possível de se dizer: foi salvo pelo álcool e pelos livros. 
Levou uma vida miserável que lhe favoreceu a escrita. Conhecia exatamente o submundo sobre o qual escrevia. Seus livros são, além de literatura, autobiografia, e isso o tornou um escritor único que levou muitos imitadores de seu estilo a fracassarem, pois ao contrário de Bukowaki, não tinham a matéria prima na alma. Como um alerta aos imitadores, em sua lápide está escrito: Don´t Try.
Mas não vou ficar aqui escrevendo a biografia de Bukowski, o que eu queria mesmo era falar de Ornella Muti.
Assisti algumas centenas de vezes ao filme Crônica de Um Amor Louco (Storie di Ordinaria Follia), de Marco Ferreri, com Ben Gazzarra e Ornella Muti. E de tanto assistir acabei compondo a canção “Mares”. Uma homenagem à Ornella, que agora coloco no Youtube (link abaixo), com imagens do curta “Histoire Sans Parole”.
Ornella, no auge dos seus 22 anos, não era uma mulher, era um escândalo!! 
A vida é realmente bela!!
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

The Long and Winding Road


Parado diante do Studio Abbey Road, em Londres, imediatamente me vem à memória o vídeo da canção que, para mim, é a mais bela canção dos Beatles: The Long and Winding Road.
Imaginei os quatro entrando no Studio, já praticamente sem trocar palavras entre si, e indo para a gravação. A música, embora seja registrada como parceria entre Paul e John, é somente de Paul MacCartney. Foi composta em sua fazenda, na Inglaterra, e já era um prenúncio do fim da banda. A letra, melancólica, diz tudo. “The wild and windy night that the rain washed away has left a pool of tears crying for the day”.
Mas o que eu queria mesmo é falar sobre o vídeo. Simplesmente lindo! A presença de Yoko Ono, pálida e fria como a morte,  era uma afronta aos demais integrantes. Muitos atribuem a ela os créditos pelo fim da banda. Besteira. Yoko Ono, apesar de ter tido enorme influência sobre John Lennon, não teve tanto poder assim. Os Beatles acabaram porque alcançaram o que Hitler e Napoleão perseguiram inutilmente: conquistaram o mundo. Não tinha mais sentido existir. Alcançaram tudo que uma banda de Rock pode imaginar conseguir e muito mais. Não é possível a existência nestas condições. Não há mais objetivos a serem buscados. Se, além disso, existe outro motivo, acredito que a morte prematura de Brian Epstein pode ser considerada o início do fim dos Beatles. Epstein, com toda sua loucura, era o que permitia aos garotos pensarem somente em se divertir e compor. Quando morreu deixou um vazio jamais ocupado.
No vídeo é possível sentir o clima triste e melancólico do fim de um relacionamento. John Lennon e George Harrison cabisbaixos, empunhando guitarras das quais quase não se ouvem notas. Ringo Star olhando fixamente para câmera era um zumbi baterista. É como se Paul MacCartney estivesse só no Studio. Ele e o tecladista Billy Preston, responsável pelo lindo solo.
Não posso contar quantas vezes já assisti a esse vídeo. E não me canso. Segue aí, para quem nunca viu. É uma das coisas mais lindas e tristes que já vi em toda minha existência.
A vida é realmente bela!

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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Segredo da Música


O segredo? Não tem segredo! Tem é que estudar, estudar, estudar, estudar........



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A Morte do Motoboy





O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
um verso vermelho e veloz;
um verso branco e triste.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
agudo como os seios de fulana,
vivo como a hóstia consagrada.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
e por mais que sangre o sangue,
não paralisa o trânsito, não eterniza o morto,
não interrompe a vida na cidade acelerada.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Carlinha Seis Ursinhos


Do narrador aos seus leitores: Na qualidade de sobrevivente aos fatos eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, narro a vocês, curta, a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Quem poesia espera, não leia.
Nascida Carla das Luzes Albuquerque Vieira, Carlinha Seis Ursinhos nunca deu muita conversa às companheiras de prisão. Silêncio quase de uma morta. Olhos de camaleão que todos os ângulos observam. Sobre a prateleira improvisada da cela, o retrato da irmã morta é quase a imagem de uma santa para todas as presas. Todas conhecem a história do crime e da vingança. Acendem vela, rezam, pedem perdão, proteção e tudo o mais que se costuma pedir aos santos.
A irmã de Carlinha foi morta aos dezesseis anos por dois promotores. Morreu com um tiro na cabeça após sofrer tortura e estupro. Impunes, sorridentes, durante todo o processo foram menos culpados que estrelas. A justiça é diferente aos julgados pelos iguais. E os iguais deram um jeito de tornar a pena o mais branda possível. A morta foi encontrada com uma arma na mão. Mas, para todo mal, duas justiças possíveis. E a melhor é a que é feita com muita dor. Os assassinos esqueceram já na primeira noite o corpo da morta. A irmã lembrou sempre e cresceu com o gosto do sangue enchendo a boca todos os dias. Uma, interrompida, e a outra, crescendo, o tempo cuidou de fazer da mesma idade existente e existida. Dezesseis anos. A morta nada mais podia. A viva decidiu vingança.
Uma menina não deve planejar morte sozinha. O mendigo Apocalipse já tinha perdido há muito o sentido do certo e do errado, do possível e do impossível, do real e do imaginário. Esta última característica era a que o tornava útil a Carlinha. Morava num ponto de ônibus e a menina o conhecia desde pequena. Crescera ouvindo falar de suas loucuras e alertada de que deveria manter distância dele. Muitos vizinhos afirmavam que já o tinham visto transformado num cachorro. Grande e forte, seguidas vezes se metia em confusão com outros mendigos. Carlinha, sem nenhum medo aproximou-se, explicou e pediu ajuda. Apocalipse sorriu e aceitou. Mas deixou claro que no retorno de Jesus eles teriam que prestar contas.
Carlinha Seis Ursinhos e o desajustado tornaram-se inseparáveis e infindáveis nas conversas. Ele sabia exorcizar por métodos dolorosos e contou a ela histórias sem fim de suas vidas passadas. Apocalipse, entre outros conhecimentos como alquimia, magia e astronomia, era também dotado da visão do fogo e do enxofre. Contou a Carlinha sobre a Santa Caverna, na igreja de Agia Anna, na Ilha de Patmos, onde São João ditou a seu discípulo Prochoros o Apocalipse. As imagens muito impressionaram a menina. Sua mãe ficava desesperada com aquela amizade, e de tudo fez para encerrá-la. Contra todas as investidas da mãe, cada vez mais se tornavam amigos. E assim se passaram dois anos, até que a mãe desistiu e ninguém mais na vizinhança se importou com aqueles dois lunáticos que viravam dia e noite em diálogo sem fim.
Durante esse tempo os dois seguiram de perto os promotores assassinos. Ela, vestida de mendiga e ele, dizem, no formato de um cão. Casa, trabalho, bar, boate, tudo o que era possível a uma menor e um mendigo conhecer sobre a vida de dois homens de classe abastada eles conheceram.
Chegado o momento e a idade certa, dezoito anos, Carlinha Seis Ursinhos, linda como sua irmã fora um dia, deu um jeito de aproximar-se dos Promotores. Um pouco mais de três encontros e logo eles levaram a conversa para onde ela queria. Ela, fria matemática e lógica deixou-se seduzir. Os dois mergulharam em encanto e desejo. A menina abriu as portas para o encontro a três, no apartamento de um deles. No grande dia trazia seis ursinhos coloridos, de plástico duro e cores variadas, pouco menos de dez centímetros cada. Brinquedos de infância da irmã morta.
Carlinha era uma graça. Os olhos verdes cravados na pele morena. Procurou não criar muitos empecilhos. Com todo nojo, que soube disfarçar, deixou-se beijar e acariciar por ambos. Tudo tinha que dar certo e, para isso, ela já estava preparada para o que teria que agüentar. Sentiu medo ao propor amarrá-los. Pela primeira vez se dava conta do absurdo que estava propondo. Era muito primário. Nenhum homem cometeria tamanha estupidez. Cometeram. Os dois deixaram-se atar à cama, que de burrice nunca é plena a cabeça de homem apaixonado. Era só uma menina franzina de dezoito anos. O que poderia acontecer demais? Aconteceu.
A menina saiu do quarto prometendo uma surpresa ao retornar. Abriu a porta do apartamento e fez entrar Apocalipse. Quase não o reconheceu. Estava belo e medonho como a própria imagem do demônio, que ela um dia ouviu descrita pela boca do mendigo. Trazia no rosto a seriedade e gravidade que o momento exigia. O carrasco adentrou a sala de torturas e abriu uma pasta de onde retirou alguns recortes de jornal com o rosto da irmã de Carlinha. Aproximou cada um deles do rosto dos magistrados de forma que pudessem reconhecer e lembrar. Os promotores sentiram um estranho frio que só se deve sentir na hora da morte. Apocalipse foi tomado por um misto de nojo e decepção ao ver o pavor estampado na cara dos dois merdas. Por um instante descontrolou-se e desferiu vários socos em seus rostos. Foi preciso que Carlinha interviesse para que ele não acabasse com tudo ali mesmo. Ela pediu paciência. A morte deveria ser sofrida como a de sua irmã. Era isso que tinham combinado tantas vezes.
Todo o processo se daria tendo como referência as imagens narradas por São João.
“E foi assim que eu vi os cavalos e os que os montavam: estes últimos eram couraçados de uma chama sulfurosa azul. Os cavalos tinham crina como uma juba de leão e de suas narinas saíam fogo, fumaça e enxofre.” (São João, Apocalipse 9,17)

Em alusão aos cascos dos cavalos apocalípticos pegaram dois pedaços de pau e bateram o quanto puderam no corpo dos advogados. Após a surra, fizeram queimaduras em suas narinas com pontas de cigarro. Apocalipse também derramou em seus olhos um liquido que tinha preparado especialmente para aquele momento. Queimava como ácido. E não faltou repertório de maldades vinculadas ao texto bíblico, até que Carlinha saiu do quarto e retornou logo após com os seis ursinhos. Apocalipse não gostou. Seis ursinhos? O que era aquilo? O carrasco argumentou que aqueles ursinhos poderiam desmoralizar todo o processo. Não havia qualquer referência de São João a imagem de ursinhos apocalípticos. Carlinha falou que não abria mão dos bonequinhos. Tinha sonhado com eles e, no mais, pertenciam à infância de sua irmã, portanto, estavam plenamente inseridos no contexto. A menina fez uma pequena demonstração do poder dos ursinhos. Pegou dois deles, passou um pouco de vaselina e bastante vidro moído quase como sal. Introduziu vagarosamente na “rede de esgoto” dos advogados que, a esta altura das perversidades, eram dois farrapos de gente. A cada gemido Apocalipse socava os merdas com desprezo. Estava decepcionado com a frouxidão dos Data Venia. Não combinava com a grande luta entre Deus e o Diabo por ele imaginada.
Plenamente introduzidos os dois primeiros ursinhos, Carlinha pegou mais dois e, desta vez, foi Apocalipse quem fez o serviço. Os dois ursinhos que restaram foram para a testa, para marcar o lugar do tiro que viria. Apocalipse fez então a grande fala que finalizaria com a sentença. Foi um discurso longo, de quase vinte minutos, acompanhado com bastante atenção e seriedade pela menina. Os promotores nada ouviram, pois a dor provocada pelos ursinhos introduzidos no ânus era insuportável. Remexiam-se o quanto era possível fazendo escorrer o sangue no lençol branco. Apocalipse explicou que nem ele, nem Carlinha, nem ninguém podia contra aquele tipo de justiça, portanto não cabia ali nenhuma espécie de recurso. A sentença seria cumprida imediatamente. Carlinha Seis Ursinhos pegou o revólver e meteu uma bala na cabeça de cabeça de cada um dos Promotores. Simples assim. Como jamais tinha atirado em sua vida, para não correr risco de errar, atirou com a arma colada a testa dos advogados. Isso fez um estrago sem tamanho, e o sangue, juntamente com pedaços de crânio e miolos, voou em todas as direções. A menina descobriu tardiamente que o louco não era assim chamado ao acaso. O louco é louco mesmo. Apocalipse, possuído subitamente por visões de cavalos e cavaleiros em chamas, derramou gasolina em todo o quarto e ateou fogo. A menina, assustada e impressionada com o que via, desmaiou. Apocalipse ergueu-a em seus braços com o carinho e cuidado de um pai. Se alguém pode conceber um cenário pavoroso para o fim dos tempos, este estava naquele quarto. O que os dois cúmplices fizeram era de dar medo ao próprio demônio.
Carlinha e o mendigo deixaram o apartamento e caminharam em silêncio. Não tinham receio de polícia, cadeia ou justiça dos homens. Isso tudo era bobagem. O certo era irreversível e estava feito.
A menina foi presa dois dias depois enquanto jantava com a mãe. A prisão de Apocalipse não ocorreu e tornou-se envolta em mistério. Os policiais encarregados de prendê-lo, para evitar a humilhação, informaram que ele não fora encontrado. Porém, a história real, narrada por várias testemunhas, dá conta de que o mendigo, ao ser cercado no ponto de ônibus onde morava, desapareceu numa nuvem de fumaça e enxofre.
Do narrador aos seus leitores: Eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, encerro aqui a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Nem santa, nem monstro, apenas uma menina.
“Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte.” (São João, Apocalipse 21,8)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Anjo Exterminado

Quando ouvi Anjo Exterminado pela primeira vez, na voz de Jards Macalé, na hora senti vontade de dar um outro arranjo, que eu achava mais apropriado à leveza da letra. Acabei gravando no Rio de Janeiro, o que foi fundamental por conta da referência na música.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Quarto em Arles

O Quarto em Arles - Van Gogh
Van Gogh olha mais uma vez o quarto. O dia é infinitamente azul, de uma melancolia doce que poderia até ser confundida com felicidade. O pintor não está em casa, está no hospício de Saint-Rémy-de-Provence. Pinta a lembrança de um lugar. A tela ainda repousa completamente limpa sobre o cavalete. A pintura vai surgindo em lascas de cores atormentadas. O azul inunda paredes, portas, camisas e os jarros sobre a mesa. Dentro do quadro, um, dois, três, quatro, cinco quadros. Dois, estranhamente claros, dois retratos, uma paisagem com algo que parece uma árvore em destaque. O holandês ainda o pintaria mais duas vezes numa inexplicável insatisfação. O Quarto em Arles se joga para frente escorrendo sobre o observador.
No Van Gogh Museum, em Amsterdam, fico parado diante do quadro por um tempo que não sei descrever. O filho pequeno me puxa pelo braço e interrompe a viagem pelo tempo. Naquele quarto, sem que Van Gogh soubesse, dormi infinitas vezes nos meus tormentos de adolescente e nas minhas bebedeiras de adulto.

Osias Canuto e João




segunda-feira, 31 de julho de 2017

Receituário Para a Salvação das Almas

Entre tantos textos lidos que povoam minha cabeça desde a mais tenra idade existem alguns que me perseguem diariamente, e que eu os carrego tatuados em minha mente. Fazem parte do meu receituário para a salvação das almas.

Os Ombros Suportam o Mundo - Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

As Amigas e o Motel


- Você me empresta seu carro para eu levar um amigo ao motel?
- De novo?:
- Como assim, de novo?
- Não, amiga! Esquece! Tô ficando maluca! Eu falei de novo?
- Falou. Eu não sou surda. Por acaso você já me emprestou seu carro para eu ir ao motel?
- Não. Claro que não! Desculpa, linda! Tô ficando maluca. Empresto sim. Mas com uma condição: vou ter que contar ao meu marido.
- O Márcio?
- Sim. Por acaso eu tenho outro marido?
- Não, sua louca. Não é isso. É que..... e se ele contar ao meu marido?
- Fique tranquila. Ele não vai contar. Mas eu também não posso correr o risco de alguém ver meu carro entrando num motel e eu levar a fama de galinha.
- Você tá me chamando de galinha?
- Nãããão. Só estou dizendo o que aconteceria se alguém visse meu carro e o Márcio não estivesse ciente do que estava acontecendo. Ele iria achar que era eu dentro do carro levando um moleque qualquer ao motel.
- Ei, o Rodrigo não é um moleque qualquer!
- Rodrigo? Você vai levar o Rodrigo ao motel?
- Eu disse isso?
- Disse. Você falou Rodrigo, e eu não sou surda. Tá bem hein?!
- Ei, ei, chega. Pode parar. Vai me emprestar a porra do carro ou não vai?
- Claro que não! Se é para o Rodrigo ir ao motel no meu carro, é melhor que ele vá comigo.
- Mas e o seu marido?
- O Márcio?
- É lógico, por acaso você tem outro marido?
- Bem, se ele vir meu carro, faço como fiz no dia que eu sai com o Fernando.
- Fernando? Você saiu com o Fernando?
- Não, não saí. Eu disse isso?
- Disse. Fernando. Eu também não sou surda. E o que você alegou quando seu marido viu seu carro entrando num motel?
- Disse que emprestei a uma amiga.
- Entendi. Êpa.... que amiga?
- Ora, tá louca? Quem é a única e verdadeira amiga que eu tenho, e a quem eu emprestaria meu carro para ir ao motel?
- Aaaaahhhhh sua vaca!!!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Noite de Rush no O'Rilley

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Osias Canuto
Osias Canuto
Osias Canuto
Osias Canuto

Osias Canuto

terça-feira, 25 de julho de 2017

Sete Meninas - Dominguinhos

Na competente companhia dos meus amigos Ivanildo Luiz e Newton Guimarães, minha homenagem a Dominguinhos em "Sete Meninas".

                                                   A beleza de Maria ela só tem pra dar
                                                   O corpinho que ela tem 
                                                   E seu andar requebradinho
                                                   Mexe com a gente e ela nem, nem
                                                   E ela nem, nem........




quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Grande Livro das Drogas


A porta estava trancada e movia-se numa dança frenética, enquanto mulheres lindas tentavam puxar os rapazes de volta ao centro do turbilhão. Led Zeppelin a todo volume. “Since I've been loving you, I'm about to lose my worried mind”. O pequeno apartamento estava lotado. A suprema trilogia: Sexo, Drogas e Rock and Roll. Era uma espécie de Woodstock indoor. Entre os presentes, Sid Vicious, Ornella Muti, Angelina Jolie e Jimmy Page, que nesta época estava morando em Lençois, na Chapada da Diamantina - Bahia. Mas, ao mesmo tempo em que a agitação aumentava, as evidências de que algo daria errado também se mostravam maiores. Os anfitriões, por fim, conseguiram livrar-se do assédio sexual das lindas mulheres presentes e saíram de bicicleta. Mal começaram a pedalar e já se depararam com o teatrólogo Shakespeare.
- Você está certo disso?
- Sim. É ele. Conheço Shakespeare e toda sua obra.
Não havia dúvida, era ele: Shakespeare. Mas o que estaria Shakespeare fazendo num domingo à tarde na 408 Sul?
Na época era moda o famoso título “O Grande Livro”. Existia de todo tipo: O Grande Livro das Aves, O Grande Livro dos Carros, O Grande Livro do Futebol, etc. Dispostos a ficar milionários, ou ao menos mais alucinados do que já eram, decidiram os dois amigos escrever O Grande Livro das Drogas. Decisão tomada, mãos à obra.
Em um pequeno espaço de tempo fizeram uso de uma série de produtos mais ou menos lícitos, e outros tantos absolutamente ilícitos. Para finalizar, um comprimido de Neosaldina e uma dose de Biotônico Fontoura. Após a ingestão destes ingredientes literários e alucinógenos perceberam que as paredes do pequeno apartamento começaram a movimentar-se. Mulheres nuas executando a dança do acasalamento. A festa estava começando e os convidados apareciam de todas as partes. Entravam pela janela, subiam pelo ralo da pia, emergiam do vaso sanitário.
Os vizinhos já estavam acostumados com as eternas confusões daqueles dois. É mesmo provável que alguns deles morressem de inveja e desejassem participar, mas, desta vez, a coisa parecia fora de controle. Tanto era assim, que os amigos pegaram suas bicicletas e fugiram imediatamente. Foi neste momento que se depararam com Shakespeare. Aproximaram-se e perguntaram o que ele estava fazendo ali na 408 Sul. Para surpresa de ambos, o genial autor respondeu que estava encenando a primeira peça do Grande Livro das Drogas. Incrível!!! O livro mal começara a ser escrito e já estava sendo usado por ninguém menos que Shakespeare. Os amigos se abraçaram emocionados com o sucesso imediato e a possibilidade clara de incontáveis lucros. Vários artistas circulavam pela quadra agindo sob as ordens do genial autor. Uma confusão descomunal. Novamente os dois rapazes foram obrigados a fugir.
Pedalaram pelas quadras da Asa Sul atravessando desertos e pântanos, até que se depararam com um grande rio que tinha inundado a avenida W3. Carros e corpos passavam diante de seus olhos sendo arrastados pela correnteza. Ficaram por um tempo em estado letárgico vendo o rio correr, até que um deles lembrou-se da bíblica travessia do Mar Vermelho e resolveu tentar algo semelhante. Deu certo. Atravessaram a avenida contando, dizendo e maldizendo os corpos que passavam carregados pelas águas. Naquele domingo, no distante mundo de uma Brasília já perdida, seguiram os dois amigos pedalando e vivendo aventuras inenarráveis e irrecuperáveis pela memória deste que vos escreve. Lembro apenas que, esgotados por tantas aventuras, pararam na Pizzaria Dom Bosco e se alimentaram fartamente enquanto aguardavam que o mar secasse.
De volta a 408 Sul, Shakespeare tinha ido embora com toda sua trupe, e O Grande Livro das Drogas ficaria para sempre interrompido no primeiro, único e maravilhoso capítulo. Até porque, convenhamos, é pouco provável que os autores sobrevivessem a um segundo episódio desse estrondoso sucesso da indústria narco-literária.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sinuca Com Walter Brasília e Toquinho


Walter Silva, também conhecido como Walter Brasília, é um sujeito incrível. Sinuca, violão e nos tornamos amigos. Em pouco menos de um mês fizemos uma amizade de mais de trinta anos. Como é possível? Simples. Walter é uma pessoa tão agradável, que em duas horas de conversa, você já se sente amigo de dois anos e, após alguns dias, você já é amigo de décadas. E assim tem sido. Duas vezes por semana nos encontramos para jogar, conversar e, como não poderia deixar de ser, tocar violão. 
Walter é um exímio jogador cercado por outros tantos grandes jogadores e, principalmente, grandes seres humanos. O que ele faz numa mesa de sinuca não se escreve, é preciso ver. É possível passar horas e horas admirando seu show. E tudo feito com uma humildade sem tamanho. Como se fossem óbvias as jogadas mais mirabolantes e inimagináveis.
Na última sexta feira, lá estava o Walter com um de seus inúmeros violões. Um violão espanhol de 1985. Maravilhoso. Uma sonoridade agradabilíssima. Toquei, toquei, toquei.... e aí ele me avisou: "Hoje o Toquinho vem aqui e eu vou dar esse violão de presente a ele." E assim foi. Toquinho tinha show marcado para as 11 da noite, mas como é um apaixonado pela sinuca, resolveu dar umas tacadas antes. É a simplicidade em pessoa. Chegou, dedilhou um pouco o violão que acabara de receber de presente e, emocionado, pediu que o amigo Walter autografasse o instrumento. As fotos estão aí. A vida é realmente bela!
Osias Canuto e Toquinho











segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sparks Steak House - NY


A Sparks Steak House, situada na 210 East 46th Street entre a Segunda e a Terceira Avenida, serve uma carne de indiscutível qualidade. Seus filés chegam ao tamanho de 15 onças que, convertido para grama, dá algo em torno de 450 gramas da mais suculenta carne. Isso é muito mais do que o dobro do que se costuma servir em um bom restaurante nos Estados Unidos. Bons e fartos pratos de salada. O filé pode ser acompanhado de um molho Roquefort bastante espesso e também muito saboroso. A enorme baked, ou jacket potato, que acompanha o filé, é servida com o molho à parte, sem economia. Pesou sobre mim a derrota de não conseguir comer todo meu quinhão. Mas não foi por isso que a Sparks Steak House tornou-se famosa, e sim, pela história que agora contarei aos senhores.
Diz a lenda que, certo dia, o mafioso Sammy Gravano perguntou ao seu chefe, John Gotti, se ele não ficava aborrecido de caminhar pelas ruas de New York sendo vítima dos olhares curiosos de todos. Gotti teria respondido que aquele era o seu público e que eles o amavam. Assim era o último poderoso chefão da família Gambino, um exibicionista. Foi o primeiro chefão a se lambuzar e explorar sem medo a subserviência da mídia.
John Gotti andava sempre vestido em caríssimos e elegantes ternos e gravatas de seda pintadas à mão. Revertia todas as situações adversas a seu favor. Como escapava de todos os processos, sem que lhes “grudassem” as provas, recebeu o apelido de Teflon. Cada julgamento que não o prendia o tornava mais poderoso, arrogante e famoso. Em 1985, quando era apenas um dos chefes da família, percebeu que tinha cometido um grande erro ao permitir uma acusação por tráfico de drogas. Paul Castellano, então Big Boss dos Gambino, não autorizava o tráfico de drogas, pois atraia demasiadamente a atenção do FBI. Gotti se deu conta de que aquele poderia ser o seu fim e, antes que Castellano o mandasse matar, foi à guerra.
Paul Castellano, ou Big Paul, como era conhecido, era amante da boa comida e passava suas noites nos bons restaurantes de New York. Sabendo disso, Gotti o aguardou na porta da Sparks Steak House, o restaurante preferido do Chefão. Estava ansioso. Alisava o terno num impossível processo de torná-lo mais lustroso e mais vistoso. Pergunta várias vezes pela hora. Reclama do atraso de Castellano. Sammy Gravano tenta acalmar o chefe. Um carro da polícia passa lentamente diante deles e faz John Gotti esbravejar. O carro com Paul Castellano aponta na esquina. Gotti ordena que atirem assim que possível. A porta do carro se abre e dele desce Thomas Bilotti. Big Paul vem logo em seguida.
Nova Iorque é particularmente linda à noite. Big Paul olha o céu de neon e sente-se aliviado pelo fim de um julgamento exaustivo. Imagina que se sentará e comerá em torno de um bom vinho, do ambiente discreto, da simpatia dos garçons e da conversa amiga de Bilotti. John Gotti não deseja nada disso. Está no limite entre o céu e o inferno. Ordena o crime. Uma chuva de balas clareia ainda mais a cidade. Big Paul está morto, antes mesmo que entrasse para jantar. A suprema crueldade. A negação de um prato de comida, de um último prazer. A ousadia e perversidade de John Gotti lhe garantiram a ascensão ao posto de chefia da família Gambino, enquanto a Sparks Steak House tornava-se subitamente famosa.
Terminado o meu almoço, na saída estive parado na porta, desafiador e esperando os tiros provindos de algum veículo sombriamente estacionado. Como Joe Pesci, na famosa cena de Jimmy Hollywood, em que abandona o cinema com um revolver descarregado e troca tiros com a polícia, apalpei meu corpo. Nada. Estava intacto. Nenhuma perfuração de bala. Senti a presença de Castellano ao meu lado e pus-lhe a mão sobre o ombro a fim de consolá-lo. Trocamos algumas palavras sobre a ousadia e grandeza dos seus inimigos e a mediocridade e frouxidão dos meus. Acenei para o Táxi e fui embora pensando em Big Paul. Um morto de barriga vazia, sem recheio. Um cão velho de vitrine, sarnento e faminto, sonhando com a carne da Sparks.
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Realidade X Imaginação

Meu amigo Luciano é um jogador de sinuca fantástico, porém tímido. Jamais consegui ver suas grandes jogadas. As mesmas só ocorrem quando resolvo ir ao banheiro. Vou ao banheiro com uma dianteira de 30 pontos e a bola 4 como “bola da vez”. Quando retorno, a bola 6 é a “bola da vez” e ele está 7 pontos a minha frente. Incrível. Luciano relata com absoluta precisão todas as maravilhosas jogadas que executou na minha ausência, e que possibilitaram a sua virada espetacular no placar. Fico encantado ouvindo a narrativa das geniais tacadas que eu nunca consigo ver, tudo em virtude da minha humana necessidade de ir ao banheiro. 
Se jogarmos sinuca durante uma noite toda e eu não for ao banheiro, ele não ganha uma. Mas, basta eu me demorar alguns minutos no lavatório, e o milagre acontece. Estranho é que o jogo que consigo ver nele não tem qualquer vestígio do jogo narrado por ele, ou seja, Luciano não se parece nada com Luciano. Os princípios lógicos de Aristóteles, de Identidade e de Não-Contradição, não valem no caso dele. Quando estou presente e vejo sua dificuldade em matar bolas que simplesmente estão implorando para cair, não consigo imaginar o exímio jogador que faz tacada com uso de efeitos, tabelas etc. E foi a partir daí que decidi colocar uma câmera escondida em minha casa, para poder filmar as tais jogadas no momento em que eu fosse ao banheiro.
Convidei-o para uma partida e executei meu truque. Depois de ganhar duas partidas, e estar ganhando mais uma, fui ao banheiro. O milagre se deu: retornei e já estava perdendo. Ele me narrou todo o ocorrido. Como sempre, fantástico. Mas desta vez, sem que ele soubesse, eu tinha tudo filmado, e poderia apreciar o talento do tímido amigo. Assim que nos despedimos corri para a filmadora como um doente aos braços de Jesus. Porém, uma das magias da narrativa é, na maioria das vezes, sua infinita superioridade sobre a realidade. Então, assistindo ao filme comecei a me questionar sobre a grandeza do imaginário mediante certas realidades. Lembrei-me de quando assisti ao filme Germinal, feito sobre a obra do escritor francês Émile Zola. Como tinha lido o livro centenas de vezes e já tinha criado todos os personagens em minha mente, fiquei arrasado com a versão do diretor Claude Berri. A minha versão era muito melhor que a dele. E foi exatamente o que aconteceu quando assisti a tal filmagem da sinuca. Luciano, o grande jogador que habitava meu imaginário, não merecia aquelas cenas terríveis.  Cenas chocantes, onde um sujeito corria desajeitado em volta da mesa colocando as bolas, com as mãos, dentro das caçapas. Eu precisava livrá-lo deste vexame. Apaguei tudo e fingi que nada tinha assistido. Apaguei e voltei ao passado, onde o mundo era muito mais glamouroso. Onde meu amigo Luciano era tão somente um gênio tímido da sinuca.
Hoje, jogo com muito mais tranquilidade contra meu talentoso amigo. E até invento umas idas ao banheiro. Tudo para não perder as fantásticas narrativas de suas jogadas. 
A vida é realmente bela!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Segredo


                    Você é mais bonita que o mar azul-turquesa da Grécia,
                    que os campos de lavanda no sul da França,
                    que a Fontana-di-Trevi, que a Vitória de Samotrácia,
                    que um fim de tarde na ilha de Santorini.

                    Você é mais bonita que a chuva nos Jardins de Luxemburgo,
                    que o sol nas alamedas de Paris,
                    que o vento entre as colunas da Acrópole,
                    que a neve caindo nas ruas de Nova York no natal.

                    Você é mais bonita que uma letra de Chico Buarque,
                    que um quadro de Van Gogh,
                    que um romance de Dostoievski,
                    que Ornella Muti na Crônica de Um Amor Louco.

                     Pensando bem, você é mais bonita que tudo.
                     E esse tudo me deixa confuso e cansado.
                     Cansado de não poder te tocar,
                     cansado de não poder te beijar,
                     cansado de não poder falar ao seu ouvido o quanto você é linda!




segunda-feira, 26 de junho de 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Dinossauro




Entra na tradicional confeitaria arrastando-se como o Velho Crepuscular de Dalí. De aparência suave e ultrapassada como um dinossauro. Era isso o que eu queria dizer: algumas pessoas já foram vencidas pelo tempo e ainda não se deram conta. E não é questão de idade, que esta chega para todos, mas de conceito. Estava conceitualmente vencida, em ângulos, gestos, vestes e pensamentos. Vivia num tempo distante e perdido.
Aquela grã-fina não era mais possível nem na capa da extinta revista O Cruzeiro e, no entanto, comeu sua torta de chocolate e tomou seu café como se fosse a mais contemporânea das criaturas.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Mestre Walter Brasília

Osias Canuto e Walter Brasília
Contemporâneo de outros tantos grandes jogadores como, Carne Frita, Praça, Fantoche, Rui Chapéu e Roberto Carlos, Walter Brasília brilhou na sinuca nacional num tempo em que não havia o benefício do Youtube. Preocupado com isso, decidi que para a alegria de quem o viu jogar, e de todos aqueles que gostam desse esporte, era hora de levá-lo ao mundo virtual. 
Para possibilitar a todos que vejam mestre Walter em ação, segue aí abaixo uma pequena amostra do seu infinito repertório. Algumas filmagens foram realizadas em minha casa e, outras, no espaço "Nosso Cantinho", que é o local onde Walter recebe os amigos. 
Como aluno e amigo, é uma alegria poder jogar contra ele. Se bem que, jogar contra ele é força de expressão. Na verdade, você está sempre tendo uma aula, seja porque ele não deixa nunca de dar orientação sobre a melhor jogada, ou seja pelo simples fato de poder vê-lo jogando e aprontando alguma das suas. 
Como todos sabemos, mas fingimos que não sabemos, durante o jogo Walter está continuamente brincando com a gente. Se realmente jogasse sério, provavelmente você só tocaria na bola uma única vez: para abrir a partida.


terça-feira, 20 de junho de 2017

Ladrões de Ontem, Hoje e Sempre - O Castelo de Azay-le-Rideau


Longe do Brasil, imaginei eu que também estaria longe dos habituais escândalos promovidos por nossa folclórica fauna política. Mas qual não foi minha surpresa ao me deparar com o senhor Gilles Berthelot, um político francês que não faria feio diante de um Luís Estevão ou Eduardo Cunha.
Responsável pelas finanças no reinado de Francisco I de França, Gilles Berthelot adquiriu o castelo Azay em 1510. A partir daí procedeu a reconstrução do local e o transformou numa encantadora residência de gosto italiano. O seu esplendor demonstra a nobreza obtida por seu proprietário no cargo de notário e secretário do rei.
Após casar-se com Phillippe (nome comum às mulheres na época da renascença) Lesbahy, herdeira das terras em redor, Bertchelot alavancou sua próspera carreira no reinado. Tudo muito parecido com os modernos ladrões do nosso Brasil, ele era ajudado por Semblançay, superintendente das finanças do reino, que era um parente seu. Quando este último é acusado de desfalques e executado, Berchelot foge. 
Em 1537, o rei Francisco I toma o magnífico castelo e entrega a seu companheiro de armas, Antoine Raffin.
Mas do castelo de Azay-le-Rideau, deixemos ao passado toda essa história. O que realmente interessa nele é sua beleza plantada numa magnífica paisagem.


segunda-feira, 19 de junho de 2017