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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Hermeto Pascoal Quebrando Tudo

Durante muitos anos ouvia essa música e imaginava como teria sido bom se eu pudesse ter também a imagem. Esses dias me lembrei dela e decidi procurar. E lá estava o video no Youtube. Faz parte da apresentação de Hermeto Paschoal no Festival de Jazz de Montreaux em1979. Uma pequena amostra da genialidade do "bruxo".

Quebrando Tudo também é o nome de um documentário feito sobre a vida de Hermeto, com seu dia a dia e depoimento de amigos e músicos. Video abaixo:

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Chora João

Nem nos meus mais loucos sonhos imaginei uma história dessas.
Caminhando pelos corredores da Advocacia-Geral da União onde, teoricamente, nada de surpreendente deveria me acontecer, fui interrompido por uma moça que tinha sido minha aluna. Ela me parou para me contar um caso ocorrido há 12 anos. Sua irmã, grávida de sete meses, estava em casa quando foi surpreendida por um ladrão e, nervosa, entrou em trabalho de parto. Como o improvável e o tragicômico não escolhem hora e lugar, deu-se que o ladrão, comovido com a situação, desistiu do assalto e levou a moça ao hospital. A criança nasceu prematura e permaneceu vários dias entre a vida e a morte. A mãe caiu em depressão. Minha aluna, na intenção de aplacar o sofrimento da irmã, achou que deveria dar a ela um pouco de música. E aconteceu que o instinto fraternal fez o seu dever de casa: no disco presenteado, a música que fiz para o meu filho João. Num dos trechos, a canção diz o seguinte: "Ouço alguém me chama é a voz do vento. Nova desmedida sensação. Toca a minha mão, a mão do tempo. Tempo que me fez o homem João. Pai é hora, o sonho que é viver. Choro agora, pra cantar quando crescer".
A mão se apegou a esse pequeno pedaço da letra como um mantra, fortalecendo a esperança de ver o filho sobreviver; e ele sobreviveu. Ela, por conta da minha música, resolveu que seu filho também se chamaria João. Segundo minha aluna, o menino tem hoje 12 anos e, contra todas as dificuldades, toca violão. E uma das músicas que mais gosta de tocar é "Chora João".
Todo mundo sabe que, após gravada e publicada, uma música engendra histórias fora do controle do seu autor mas, definitivamente, por tamanha aventura eu não esperava. A vida é realmente bela!


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Sparks Steak House - NY


A Sparks Steak House, situada na 210 East 46th Street entre a Segunda e a Terceira Avenida, serve uma carne de indiscutível qualidade. Seus filés chegam ao tamanho de 15 onças que, convertido para grama, dá algo em torno de 450 gramas da mais suculenta carne. Isso é muito mais do que o dobro do que se costuma servir em um bom restaurante nos Estados Unidos. Bons e fartos pratos de salada. O filé pode ser acompanhado de um molho Roquefort bastante espesso e também muito saboroso. A enorme baked, ou jacket potato, que acompanha o filé, é servida com o molho à parte, sem economia. Pesou sobre mim a derrota de não conseguir comer todo meu quinhão. Mas não foi por isso que a Sparks Steak House tornou-se famosa, e sim, pela história que agora contarei aos senhores.
Diz a lenda que, certo dia, o mafioso Sammy Gravano perguntou ao seu chefe, John Gotti, se ele não ficava aborrecido de caminhar pelas ruas de New York sendo vítima dos olhares curiosos de todos. Gotti teria respondido que aquele era o seu público e que eles o amavam. Assim era o último poderoso chefão da família Gambino, um exibicionista. Foi o primeiro chefão a se lambuzar e explorar sem medo a subserviência da mídia.
John Gotti andava sempre vestido em caríssimos e elegantes ternos e gravatas de seda pintadas à mão. Revertia todas as situações adversas a seu favor. Como escapava de todos os processos, sem que lhes “grudassem” as provas, recebeu o apelido de Teflon. Cada julgamento que não o prendia o tornava mais poderoso, arrogante e famoso. Em 1985, quando era apenas um dos chefes da família, percebeu que tinha cometido um grande erro ao permitir uma acusação por tráfico de drogas. Paul Castellano, então Big Boss dos Gambino, não autorizava o tráfico de drogas, pois atraia demasiadamente a atenção do FBI. Gotti se deu conta de que aquele poderia ser o seu fim e, antes que Castellano o mandasse matar, foi à guerra.
Paul Castellano, ou Big Paul, como era conhecido, era amante da boa comida e passava suas noites nos bons restaurantes de New York. Sabendo disso, Gotti o aguardou na porta da Sparks Steak House, o restaurante preferido do Chefão. Estava ansioso. Alisava o terno num impossível processo de torná-lo mais lustroso e mais vistoso. Pergunta várias vezes pela hora. Reclama do atraso de Castellano. Sammy Gravano tenta acalmar o chefe. Um carro da polícia passa lentamente diante deles e faz John Gotti esbravejar. O carro com Paul Castellano aponta na esquina. Gotti ordena que atirem assim que possível. A porta do carro se abre e dele desce Thomas Bilotti. Big Paul vem logo em seguida.
Nova Iorque é particularmente linda à noite. Big Paul olha o céu de neon e sente-se aliviado pelo fim de um julgamento exaustivo. Imagina que se sentará e comerá em torno de um bom vinho, do ambiente discreto, da simpatia dos garçons e da conversa amiga de Bilotti. John Gotti não deseja nada disso. Está no limite entre o céu e o inferno. Ordena o crime. Uma chuva de balas clareia ainda mais a cidade. Big Paul está morto, antes mesmo que entrasse para jantar. A suprema crueldade. A negação de um prato de comida, de um último prazer. A ousadia e perversidade de John Gotti lhe garantiram a ascensão ao posto de chefia da família Gambino, enquanto a Sparks Steak House tornava-se subitamente famosa.
Terminado o meu almoço, na saída estive parado na porta, desafiador e esperando os tiros provindos de algum veículo sombriamente estacionado. Como Joe Pesci, na famosa cena de Jimmy Hollywood, em que abandona o cinema com um revolver descarregado e troca tiros com a polícia, apalpei meu corpo. Nada. Estava intacto. Nenhuma perfuração de bala. Senti a presença de Castellano ao meu lado e pus-lhe a mão sobre o ombro a fim de consolá-lo. Trocamos algumas palavras sobre a ousadia e grandeza dos seus inimigos e a mediocridade e frouxidão dos meus. Acenei para o Táxi e fui embora pensando em Big Paul. Um morto de barriga vazia, sem recheio. Um cão velho de vitrine, sarnento e faminto, sonhando com a carne da Sparks.
A vida é realmente bela!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O Trapacista Degolante



Durante boa parte de minha vida me diverti cortando cabeças. Cortava com uma precisão milimétrica. Desenvolvi técnicas sutis que não permitiam qualquer reação da vítima. Chegava por vezes a eliminá-las por inteiro da paisagem, mas elas só se davam conta que estavam sem cabeça, ou sem corpo, tempos depois. Certamente me odiavam por isso. Era linda a minha arte.
As máquinas digitais vieram para destruir meu trabalho. Tornaram as recordações de viagem muito chatas. Era bem mais divertido quando o indivíduo, ao revelar a foto, percebia que tinha sido degolado ou, simplesmente, não existia. O sucesso da foto podia ser medido pelo ódio do fotografado ao ver a revelação.
Chega ao trabalho todo satisfeito com o pacote de fotografias nas mãos, louco para mostrar a todos sua superioridade viajante e eis que, bem diante do Coliseu, do Pathernon, do Metropolitan ou do Opera House, nada. Nada. O colega, com toda maldade, mesmo reconhecendo aquela camisa laranja com listras verdes, sentencia:
- Esse não é você, é?
– Sou eu sim. Olha a camisa!
– Não me lembro dela.
- Então olhe o sapato!
– Ei!!! Não ouse tirar este sapato!! Você veio com ele a semana toda.
– Não sabia que você reparava no meu sapato. Isso é coisa de mulherzinha.
– O que você está insinuando?
– Não estou insinuando nada. Só disse que é coisa de mulherzinha ficar reparando na roupa dos outros.
E lá vinha eu caminhando calmamente quando vi a máquina fotográfica nas mãos de um deles, e outros cinco ou seis prontos para a foto histórica diante da enorme placa de cimento da Advocacia-Geral da União. Lembrei-me de todas as minhas aventuras e odiei as máquinas digitais, mas ao me aproximar percebi que havia uma chance de tratar-se de máquina analógica.
O sujeito me pediu para fotografá-los. Não queria ficar de fora do registro histórico. Recém aprovados no concurso de Advogado da União queriam uma imagem diante da placa. Quando peguei a máquina em minhas mãos, não acreditei: era analógica. O passado correu filme veloz em minha mente. Ouvi com bastante atenção as recomendações:
- Você enquadra de forma que apareçamos todos nós e também o nome na placa.
– Claro. Fique tranquilo. Sou um profissional!
Posicionaram-se fingindo que eram bonitos, ricos e inteligentes. CLIC!!!
Entreguei-lhe o registro ainda secreto da placa e de algumas pernas. Não me agradeceu. Nem me importei.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

One For My Baby


It's quarter to three, there's no one in the place, except Frank and me. Frank vem ao longe com seu andar lento e às vezes quase parado. Vejo-o pela janela. À medida que se aproxima do prédio torna-se menor, mais curvado. Talvez um efeito do abatimento psicológico que tornar à casa vazia provoca. Sente que algo pesa sobre seus ombros. Meu olhar. Olha para cima e eu aceno para ele. Peço que venha até o meu apartamento para conversarmos.
Frank caminha bastante, mas não vai a lugar nenhum. Quem mora sozinho, quando sai de casa, não vai especificamente a lugar algum, sai apenas. Sai da casa, do vazio, da incomunicabilidade. Sai e compra qualquer coisa, só para pedi-la e depois dizer obrigado, e saber que existe e que sua existência altera a vida de outras pessoas porque é preciso desviar-se dele nas ruas, etc. Conheço todos os mecanismos de defesa contra a solidão.
Frank bate à porta, entra e senta-se num velho sofá que já é seu. Traz sob o braço sua garrafa de uísque. Frank, como eu, é um tanto quanto desajustado, e costumamos passar longas horas juntos em torno da música e da bebida. Nunca contei a ele sobre Luiza, mas sei que desconfia de algo. Estranhamente não me pediu para pegar o violão. Sempre pede. A vida é curta e, sem arte, é tediosa.
Pergunto se está tudo bem, e ele me conta que anda pensando demasiado em uma mulher. Uma garçonete que vive dentro de uma de suas garrafas de Jack Daniel’s. Conta-me uma história longa e louca, e depois me explica que sempre foi apenas cantor, que jamais compôs uma música. I'm feeling so bad, wish you'd make the music pretty and sad. Assim, precisa que eu componha algo para ela. Feito isso, eu tocarei e ele cantará. Concordo imediatamente em fazê-lo. Enchemos nossos copos com mais uísque e brindamos o novo projeto. Súbito me olha e diz: e você? Eu? Set the drinks up. I've got a little story, you ought to know.
Também ando pensando demasiado em uma mulher. Luiza vive dentro da TV e todos os dias vem visitar-me. Seus lábios não têm cor, ou melhor, são de uma cor indescritível. Tudo quanto é belo é menos belo que os lábios dela. Às vezes pálidos, às vezes de um vermelho que inferniza minhas noites. Pergunto se ele quer vê-la. Responde que sim. Ligo a televisão e lá está ela: Linda. A TV não entende os homens. Ficamos ambos olhando Luiza mover-se dentro da caixa de insanidades. Caminha pela galeria abarrotada de gente e vitrines que só ganham sentido quando ela passa. Todos os outdoors refletem sua imagem, todas as ruas têm seu nome e todas as lojas existem somente para satisfazer-lhe os desejos. Ela nem liga. Flui entre os comerciais, a novela, os noticiários. Frank me pergunta o que sei sobre ela. Nada. Não sei absolutamente nada. Exceto que é linda. Não sei onde vive, aonde vai, que noites infindas enfeita com seu sorriso, suas pulseiras, seus anéis, nada sei.
Desligo a TV, pego o violão e começo a tocar. Frank canta. Tem a mais bela voz que já ouvi, moldada pelo cigarro, pelas drogas, pelas noitadas e pelo Jack Daniel’s. Pergunta-me o que estou escrevendo. Se é uma nova canção. Respondo que é uma pequena carta para Luiza. Pede para ler e, ao final, sorri com aprovação. Quer saber se já mostrei a ela. Digo que não, mas que falei sobre o assunto e perguntei se podia escrever, se podia usar seu nome, e ela me disse que sim, e que iria adorar. Explico que não pude entregar-lhe a carta porque não consigo entrar na televisão. Preciso encontrá-la. Frank resolve então que devemos sair imediatamente e procurar Luiza.
Chove uma chuva fina e fria, molha menos o corpo que a alma. Um homem nos pede fogo. Tenho fósforos. Procuro nos bolsos do paletó, da calça e nada. O homem sorri de forma compreensiva, mas demonstra desejo de prosseguir seu caminho. Ele é magro e tem grandes olhos verdes. Um pouco tímido. A chuva parece não incomodá-lo e ele me olha fixamente enquanto a água escorre por seu rosto. Conheço-o de algum lugar que não me lembro. Frank pergunta seu nome e ouve em resposta: Francisco. Novamente procuro os fósforos em todos os bolsos e encontro no fundo do paletó, entre chaves e uma estranha imagem de Luiza que não sei explicar de onde veio. O homem chamado Francisco pergunta algo sobre a mulher na foto. Depois de ouvir meu relato informa que a viu caminhando próximo de onde estávamos. Aponta-nos a direção e segue seu caminho.
Eu e Frank seguimos na direção indicada, mas nosso caminhar é lento, pois vamos parando de bar em bar. Sentamos em todos, tomamos nossa dose de uísque, tocamos uma ou duas músicas e prosseguimos. Fomos assim de rua em rua, de bar em bar, de esquina em esquina. Quando já não acreditávamos mais encontrá-la percebi na cidade um brilho estranho e intenso, como o brilho da imagem de Luiza na tela de TV. Lá estava ela. Sigo sua sombra através das vitrines. É tão bonita quanto a Vitória de Samotrácia, quanto O Quarto em Arles, quanto Os Demônios de Dostoievski, quanto o gosto amargo do uísque, quanto o imenso mar azul de Santorini. Cerco sua passagem e sem muitas palavras entrego a carta. Meio confusa ela toma o papel em suas mãos. Não quero incomodá-la. Frank me aguarda um pouco afastado. Como sempre, decidimos que o melhor seria ir até o próximo bar, tocar mais algumas músicas e tomar mais algumas doses. Andamos assim por toda a noite até que no dia seguinte Frank viajou.
A parede branca me olha com indiferença. Delimita a pequena área da vida. Quisera, eu tivesse essa resistência fria da parede; indiferente ao amor, ao ódio, à poesia, a tudo. Uma resistência humilhante que me deixa ainda mais frágil e metafísico. As paredes, se alma tivessem, viveriam tranqüilas. Talvez não. É a alma a grande responsável por todo sofrimento. É inerente a ela uma metade triste que, no meu caso, ocupa quase todos os espaços. Preciso sair. Preciso sair porque Luíza me espera. Me espera desde a primeira vez que nos vimos e eu senti raiva porque percebi que precisaria dela para o resto da vida.
Agora que consegui sair de casa sinto que jamais precisarei novamente da televisão. Sentado num bar peço meu uísque. Estou livre pela primeira vez. O homem próximo a mim acompanha algum programa no rádio. De repente, peço que aumente o volume. Não sei como se deu e mal posso acreditar. Como ela fez isso? Ouvi a voz de Luiza. Sim, é ela. É ela. Persegue-me e, numa incrível prova de amor, mudou-se para dentro do rádio. Estou confuso. Peço outro Jack Daniel’s. Frank está em Las Vegas, temos um contrato como músicos em um grande cassino. Preciso encontrá-lo para contar-lhe esta incrível história. O garçom espera que eu solicite outra dose. So… make it one for my baby and one more for the road. A long, long road.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Domingo, Pé de Cachimbo


"Hoje é domingo, pé de cachimbo." Se você não estranhou a frase anterior é um ótimo sinal. Você teve uma infância maravilhosa. Não estou aqui para destruir as boas lembranças de ninguém, mas, pense bem: você já viu um pé de cachimbo? Nem eu, mas procurei durante toda a minha infância. Vivia perseguido pelo tal pé, que buscava em todos os quintais sem jamais encontrá-lo. Os quintais insistiam em me desmoralizar e me fazer mentiroso. Neles eu encontrava pé de tudo quanto é coisa: de caju, de banana, de jambo, mas nunca o mais valioso de todos: o sonhado pé de cachimbo.
Cresci com a memória da minha incompetência em achar um pé de cachimbo. Vivi feliz com ela até o exato momento em que um amigo me revelou o que para mim seria uma tragédia: “Hoje é domingo, pede cachimbo”. Pede? Como assim? Maldito domingo. Maldito domingo que pede cachimbo. Que pede o sentar-se descansadamente com o aparato de madeira, osso ou sei lá o que mais entre os lábios. Pede, do verbo pedir, presente do indicativo, terceira pessoa do singular. O domingo pede cachimbo. Pede cachimbo. Por que, domingo? Não podias ter pedido um cigarro? Um suco gástrico? Um chinelo? Por que me traíste? Eu que te amava tanto. Que em tuas manhãs e tardes fazia nada e procurava pés de cachimbo pelos quintais, enquanto o mundo, lá longe, muito longe, se acaba nas insuportáveis intrigas de adultos. Por que me traíste pedindo? Pedindo o miserável cachimbo? Desculpe-me amigo leitor se você agora também se sente enganado, mas não vou carregar sozinho o peso de tamanha desgraça.
Essa história toda provocou em mim violenta reação: retornei indignado e com toda força da minha insanidade, tantas vezes comprovada, à busca frenética do pé de cachimbo. Se alguém achar antes de mim, me avise.
Para mim, hoje ainda é “domingo, PÉ de cachimbo”. E que se dane o outro domingo, o domingo infeliz, que com sua falta de criatividade se arrasta pedindo coisas e destruindo memórias.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Walter Brasília - Sinuca Sem Tabelas

Trancar uma partida na Sinuca não é coisa para amadores. Só é possível para jogadores com certa experiência e talento. Agora, trancar uma partida sem que a bola branca toque as Tabelas, até porque elas foram retiradas pra coisa ficar mais estranha ainda, é algo que só Walter Brasília faz. 
Possivelmente, depois de assistir ao vídeo abaixo, muitos jogadores de qualidade treinarão e conseguirão executar o feito. Mas Walter Silva tem o mérito de ter sido o primeiro, e eu tive a sorte de ter filmado.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Tempo Quente


O poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, é uma das obras que mais li na vida. Quando adolescente, na minha insanidade, de tão apaixonado tentei decorá-lo. Considerando o tamanho da obra, creio que fui muito bem ao conseguir recitar “de cabeça” algumas páginas do livro. Mas é óbvio que decorar tudo era tarefa praticamente impossível. Hoje me dou por satisfeito de já tê-lo lido centenas de vezes. 
Esses dias descobri uma maravilhosa versão do poema em desenho animado, e imediatamente enxerguei também a música escondida nas paisagens. Sem perder tempo, montei um video com a minha composição “Tempo Quente” e algumas imagens selecionadas do poema. Nos violões, eu e meu amigo Marcelo Barbosa. Segue abaixo o video:



quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Flamengo até Morrer! Será?


Charles Darwin empregou o termo "Sobrevivência do Mais Apto" como sinônimo de "Seleção Natural". O organismo que se adapta mais facilmente ao meio aumenta suas chances de sobrevivência num mundo hostil e adverso.
E lá ia a moça caminhando vestida no manto sagrado do Flamengo. Era linda. O verdadeiro canalha deve pensar rápido. Tirei a camisa na qual estava equivocadamente trajado e parei o carro. Ofereci carona e fomos comemorar o título de campeão brasileiro. Éramos uma emoção só. Um só coração rubro-negro. Cantamos o hino, pulamos, gritamos como ensandecidos na geral do Maracanã:  Meeenngoooo!!!
Em pouco tempo ela já se considerava minha namorada, noiva, esposa e já estávamos fazendo planos. Nos casaríamos numa igreja enfeitada com bandeiras do nosso time, passaríamos a lua de mel no Rio de Janeiro, iríamos juntos ao estádio torcer pelo nosso time. O terno e o vestido de noiva fariam lembrar as cores do Mengão, um espetáculo só possível quando paixões tão intensas se misturam!!! Incrível como a emoção do futebol decide destinos. 
Assim prosseguimos sonhando e, principalmente, comemorando. Ela me apresentou outras tantas lindas flamenguistas e a todas beijei e abracei com rubros sentimentos e negras intenções, afinal, o nosso Flamengo era campeão brasileiro. Mas o local estava demasiado cheio, e acabamos nos perdendo um do outro. Procurei-a por alguns instantes e, como não encontrei, meu amor por ela foi declinando a cada passo e renascendo em outras faces. Eram tantas rubro-negras, e estavam todas tão felizes e acessíveis. Terminei a noite nos braços de outra linda torcedora cujo nome também não me lembro. 
Quando entrou no meu carro, ao ver a camisa que eu tinha tirado no começo da história perguntou: - O que é isso? Respondi com toda naturalidade possível: – É minha camisa do Botafogo! – Mas você não estava lá cantando o hino do flamengo? – Estava. Mas não vamos nos apegar aos detalhes. – Então, você é Botafoguense? – Sim, Botafoguense. Mas não sou cego nem burro! 
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Um Cavalo na Câmara Legislativa de Brasília


Lá vinha eu transitando pelo eixo monumental quando me deparei com um cavalo negro. Mas o que faria aquele belo animal bem no centro da capital federal? Fiquei esperando para ver se o quadrúpede se movia correndo elegantemente como nas famosas cenas dos filmes de cowboy, mas nada aconteceu. Não dava um passo sequer. Aquela estranha imobilidade começou a me incomodar e, rapidamente, trouxe uma ponta de desespero. Os carros passavam e os motoristas pareciam não notar que aquele cavalo não estava se movendo. Não era possível. Havia algo muito estranho em seu comportamento. Será que somente eu percebia o drama do pobre animal? Um certo temor, relacionado a uma sombria desconfiança começou a tomar conta dos meus pensamentos e, não demorou muito, eu já estava tomado de pânico. Diante do trágico, em situações de desespero, os homens costumam orar. E foi o que me restou: Deus Pai, Todo Poderoso, reparador de iniquidades, cure esse pobre animal e permita que saia a galopar para bem longe, muito longe! Abri os olhos. Aaaaaahhhhhhh!!!!!!! Ainda estava lá. Meus temores se confirmaram. Era uma estátua, uma escultura, um enorme monumento negro a sei lá o quê. Prosseguindo a série de horrores que tem assolado a arquitetura de Brasília, agora havia a estátua de um cavalo diante da Câmara Legislativa. 
Definitivamente, apesar de toda minha imaginação, não consigo matar essa charada. O que diabos um cavalo e a Câmara Legislativa têm em comum? Nada contra a obra em si, mas, a estátua de um cavalo ficaria mais bem posicionada no parque de exposições da Feira Agropecuária. Será que erraram o endereço e o animal permanece lá porque ninguém o notou? Será que caiu de algum caminhão de mudança? Ou, pior, será que a população, desanimanada com as constantes mazelas da casa, desistiu de vez do que acontece dentro e fora dela? Seria razoável. 
Enquanto ninguém toma uma atitude para encaminhar o equino a paragem mais adequada, ele permanece lá, compondo um pavoroso cenário, juntamente com as bandeirolas amarelas e as bolas de aço do Memorial JK. E lá se vai a moderna arquitetura de Brasília rumo ao inferno medonho.
Faço um apelo aos nobres deputados: ou tirem de lá a cavalgadura, ou a coloquem para dentro e permitam que  também paste na verdejante grama do plenário! 
A vida é realmente bela!
PS: Os Deputados, talvez por medo da concorrência, decidiram pela primeira opção.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O Menino Que Adivinhava A Morte

Ainda pequeno, aos seis anos, um homem olhou para ele e ouviu de sua boca: - Amanhã, quando o senhor morrer, seu filho poderá morar em minha casa.
A mãe o repreendeu pela frase e o fez desculpar-se. Todos no bar olharam a criança e sorriram. O homem morreu no dia seguinte. A mãe ficou preocupada e assustada. O povo rapidamente deu conta do ocorrido e a romaria começou. Todos iam a sua casa para saber o ano em que iam morrer. Ele dizia sem cerimônia: - A senhora morrerá daqui a dez dias. – Desculpe-me senhor. O senhor não chegará vivo até a noite.
A maioria das pessoas trancava-se em casa na esperança de driblar a morte. De nada adiantava. A morte vinha cirúrgica conforme as previsões. Invadia casas e quartos, derrubava portas bem trancadas, quebrava cadeados, dominava vigias. Cumpria mandado. Matava.
Certo dia entra de mãos dadas com uma índia, uma menina. Tinha então treze anos. Três a mais que ele. Antes que a índia pergunta-se qualquer coisa a menina falou:  - Quando vou morrer? 
Olhou nos olhos dela e não teve vontade de falar frase alguma. Fingiu que não ouviu. Depois disse que estava cansado, que não poderia responder. Foi tomado por dor de cabeça violenta e caiu de cama. O estado do menino despertou cuidados em sua mãe, que tratou de chamar o médico da cidade, um homem velho e de aspecto cansado. Andava devagar e era famoso por seus diagnósticos e receitas estranhas, mas que davam certo sempre: - Ele está apaixonado. Passará em alguns dias. Não sei quantos. Depende do tamanho da paixão ou da possibilidade de contato com a origem dela. Em todo caso, pegue algumas pétalas de rosa e mergulhe numa jarra com água, deixe dormir fora de casa mirando a lua cheia. Amanhã faça-o tomar pequenas doses durante todo o dia.  Vai passar. Coisas do amor.
Antes de sair parou à porta e, voltando-se para os olhos da mãe avisou: - Ele não fará mais previsões. Perdeu essa capacidade. Coisas do amor.
A pequena menina insistiu com a índia, pois tinha feito uma pergunta ao menino que adivinhava a morte e ele não tinha respondido. Ela queria, precisava vê-lo. Era filha de família muito rica, mas perdeu pai, mãe e fortuna numa das tantas pestes que assolaram a cidade. Não lhe sobrou nada. Acabou sendo criada pela índia velha que também criara sua mãe. Não tendo como fugir de tanta insistência a índia decidiu fazer sua vontade. Quando chegaram à casa do menino que adivinhava a morte, a mãe deste explicou que ele estava acamado. Mas foi acabar de entrar a menina na casa e ele, lá do quarto onde estava, sentiu-se melhor e correu para a sala. Neste dia perdeu sua capacidade de adivinhar. Não queria mais adivinhar nada. Só gostava da companhia da menina. 
Assim cresceram e o amor os surpreendeu num quarto sombrio. Foi violento. A moça mais velha devorou o rapaz. Ficaram amigos, amantes e inimigos. Freqüentavam-se sem data ou hora marcada. Ela morava sozinha num quarto sobre o açougue. Encontravam-se no pequeno espaço repleto da mistura de odores de carne e bálsamos. Ele possuía uma pequena loja de relógios, onde ganhava dinheiro suficiente para uma vida tranquila. Ela passava os dias entre o quarto do açougue e a rua. Rejeitou todas as investidas dele para que se casassem e morassem juntos. Preferia os encontros diários. Ele, depois de inúmeras tentativas, também acabou acostumando-se com a situação. Assim, seguindo a rotina ilógica desses encontros, envelheceram juntos numa convivência de mais de sessenta anos. Ela parecia mais nova. Vivera de amores escandalosos que soube esconder dele e que a conservaram melhor. Ele não soube, não viu, não sentiu. Ouvidos que ouviam o som do amor eterno e pouco se importavam com o que dizia o povo.
Com a chegada da velhice decidiram que era o momento certo para estarem juntos na mesma casa. Ela abandonou o quarto do açougue e foi morar com ele. Trouxe para a casa certa desarrumação a qual ele não estava acostumado. Era muito meticuloso e limpo. Teve que habituar-se à bagunça das coisas dela; com seus jornais velhos espalhados por todos os cantos, com suas roupas postas em qualquer lugar. Ele lavava e limpava a casa. Ela cozinhava.  Para ter mais tempo em casa ele vendeu a loja de relógios. O dinheiro aplicado era suficiente para garantir-lhes sustento pelo resto da vida. Nas tardes quentes sentavam-se na varanda e ficavam a conversar até o anoitecer. O médico sempre vinha ter com eles. Os três conversavam sobre política e jogavam gamão. E assim corriam os dias. Certa manhã ela acordou e estranhou o fato dele ainda estar dormindo. Sempre acordava antes dela para preparar e servir o café na cama. Chacoalhou-o e nada. Estava morto. Ela o agarrou pela gola e amaldiçoou-o como jamais fizera antes. Sacudiu, chorou, gritou todos os nomes feios que sabia da juventude. Rezou coisas proibidas que tinha aprendido com a índia velha. Não adiantou. O amor morto nunca fora tão amado, percorrendo quilômetros de veia em seu corpo num calor medonho. Deitou doente e foi socorrida pelo mesmo velho amigo médico que, pelas contas do povo, já andava com quase cento e trinta anos. A cidade não gostava dela. Não gostava de suas safadezas, que as mães contavam às filhas e passavam de geração a geração. Procedeu-se o enterro. Ninguém assistiu. Somente ela e o doutor.
Os dias se tornaram um passar modorrento para ela. Piorou de suas crises de asma a ponto de despertar os cuidados do médico. Não se conformava. O médico vinha todos os dias e tentava conversar sobre política e jogar uma partida de gamão. Ela às vezes aceitava. Mas parecia que falava e jogava como autômato, sem espírito presente. Assim passaram-se dois meses. Ela mal saia de casa. Ia somente à feira fazer as compras para as necessidades da semana. Numa dessas saídas, ao retornar encontrou o amor sentado na sala. Vestia a mesma camisa azul do primeiro encontro amoroso no quarto sobre o açougue. Os mesmos sapatos pretos e velhos. Tinha o mesmo olhar. Ela desmaiou. Acordou. O amor ainda estava lá sentado. Era verdadeiro e eterno. Não sumiu, nem se perdeu com o tempo e rotina, com as traições e irritações mensais. - Você ainda está aí? - Sim. Não tinha para onde ir.  – É bom vê-lo, mesmo morto. – Eu sei. – Como é a morte? Não sei. Ainda não entendi direito.
Nesta tarde, quando o médico chegou para a conversa diária, percebeu nela a mudança de comportamento e aparência. Examinou seu peito e não achou vestígio da asma. Também não ouviu dela as reumáticas queixas. Ela falou sobre política como se não tivesse perdido o fio da meada dos últimos acontecimentos. Jogou gamão com a mesma irritação e desejo de vitória que a caracterizava. O doutor comentou a mudança: - Fico feliz de vê-la mais disposta. Ela apenas sorriu. Não teve coragem de comentar nada com ele. Passados alguns dias achou que era o momento de falar-lhe, afinal, era um grande amigo. - O que o senhor acha da vida após a morte. - Eu? Não sei. Nunca pensei nisso. Creio que não acho nada. Já vi muitas coisas. Já vi mortes, doenças e sofrimentos de todos os tipos e não me incomodo com religiões. - Não falo de religião. O senhor já conversou com algum morto? - Não. Mas conheço algumas histórias de gente que voltou da morte. - Era isso que eu queria lhe dizer. O que acha de a partir de hoje jogarmos e conversarmos dentro de casa? Queria mostrar-lhe uma coisa.
O doutor consentiu. Não era homem de muitos incômodos. Quando entrou ela o fez esperar em uma das salas e foi ver se o amor estava na outra. Explicou-lhe sua ideia, à qual ele não fez objeção. - Doutor, o senhor poderia vir cá nesta sala? O médico levantou-se e a passos lentos atendeu ao pedido. Quando viu o amigo sentado num canto da sala pensou que ele era outra pessoa. Um desconhecido. Olhou com mais calma e não emitiu palavra. Esse gesto deixou-a assustada. Lúcida que era, sempre cogitara a possibilidade de estar ficando louca. Se o doutor não o via era porque talvez só existisse na cabeça dela. Mas seu sofrimento durou pouco. Logo, o médico dirigindo-se ao morto perguntou: - Como tem passado? - Bem. - Fico feliz em vê-lo. Ela deu um suspiro de alívio e imediatamente puxou conversa sobre política e foi buscar o tabuleiro de gamão. A vida voltou a caminhar como antes. E assim foi durante quase dois anos, até que o amor morto foi se tornando esverdeado e já não respondia mais às perguntas. Ela interrogou o doutor sobre o que estaria acontecendo, e ele respondeu: -Tudo que entendo de mortos foi o que aprendi com ele nesta breve convivência pós-túmulo, mas, aparentemente está rejuvenescendo. Ela achou estranho o diagnóstico, mas foi exatamente o que se deu.
Um dia, ao retornar da feira, sentiu-se mal e teve que deitar-se. Uma dor no peito muito diferente das que estava acostumada. Teve força apenas para caminhar até a sala. Ali encontrou, no lugar do amor morto, um menino igual a ele mesmo quando jovem. Ela o reconheceu e entendeu tudo, e cheia de esperança fez a ele a mesma pergunta que setenta anos atrás ficara sem resposta: - Quando vou morrer? O menino não fugiu à resposta, ao contrário, estendeu-lhe a mão infantil. Quando ela tocou sua mão sentiu-se a mesma menina que um dia entrara na venda na companhia da índia velha. O barulho e os odores da venda inundaram todos os cantos da sala. Sorrindo, ele exclamou: - Você não terá tempo de dizer mais uma palavra. 
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O Arco do Pontão!

Mais uma da série de horrores que me intrigam aqui em Brasília. Esses dias, passando pela ponte  Honestino Guimarães, ou ponte do Pontão, como é mais conhecida, percebi que estava diante de um enigma:
- Alguém pode me explicar o que significa aquele arco medonho instalado na entrada do Pontão? Vamos recapitular: o Arco de Constantino, em Roma, é um arco triunfal nas proximidades do Coliseu, e foi erigido para comemorar a vitória de Constantino sobre Maxêncio na Batalha da Ponte Mílvio, 312 AD.  O Arco do Triunfo é um monumento localizado na cidade de Paris, construído em comemoração às vitórias militares de Napoleão Bonaparte. E o Arco do Pontão? Teria sido erigido em homenagem às incansáveis lutas dos nossos Imperadores Joaquim Roriz, Agnelo Queiroz e José Roberto Arruda contra a corrupção?
Como se aquele amontoado de cimento sem propósito não bastasse, ainda colocaram uma bola de aço bem diante do portal. Mais uma bolota, da mesma série que assombra diariamente, e em todas as fotos, o Memorial JK. Que me perdoem as noivas, pois tenho visto que elas sentem uma estranha atração pelo inexplicável monumento, mas se eu pudesse levaria ao óbito aquele monstro.
E que o bom Deus nos proteja das boas intenções estéticas que ainda virão por aí! 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Barbosa-Lima - Na Sombra da Mangueira

Antonio Carlos Barbosa-Lima é um violonista brasileiro muito pouco conhecido no Brasil. Mora há muitos anos nos EUA, onde construiu carreira de sucesso. Foi aluno do mestre Isaías Sávio por longa data. É um sujeito que considero ímpar. Um gênio do violão. Seus arranjos são diferenciados e capazes de transformar melodias simples em obras complexas. Além disso, tem uma técnica muito apurada e cheia de particularidades. Costuma usar fartamente os harmônicos sem tornar a interpretação cansativa.
Na Sombra da Mangueira é um de seus vários arranjos feitos sobre as composições de Luís Bonfá e que, com a genialidade de Carlos Barbosa-Lima, tornou-se mais uma obra prima.
Sobre ele, nunca é demais lembrar o comentário do maestro Tom Jobim: "Nas mãos de Carlos Barbosa-Lima, o violão se transforma em uma orquestra".



quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O Inimigo de Shopping


Num passado recente tinha eu por hábito almoçar pelos shoppings de Brasília na companhia do meu amigo Newton Guimarães. Aprendi com ele que shopping é um lugar onde você sempre encontra um inimigo. E a característica mais desagradável do inimigo de shopping é que ele sempre vem cumprimentá-lo.
Lá estava eu tomando meu café quando o inimigo tocou minhas costas. Trajava terno, mochila nas costas e o maldito crachá pendurado no pescoço. Se já não fosse meu inimigo, eu certamente teria problemas com ele somente por conta desse atentado estético. Mas a desgraça ia além. Uma das coisas que mais me deixa agitado é ver um homem tomando sorvete de casquinha sem usar a colherzinha, ou seja, lambendo o sorvete. E era exatamente o que o inimigo fazia. Um espetáculo depressivo. Deveria ser proibido tal gesto. Sorvete de casquinha é um objeto fálico. Não deveria ser permitido aos homens sem o acompanhamento de uma colherzinha. Tentei me desvencilhar, mas inimigos de shopping são astutos e pegajosos. Põem a mão sobre seu ombro e estabelecem conversas insuportáveis que amarram uma a outra sem chance de fuga. 
O inimigo em questão era um sujeito com a asquerosa arrogância dos nascidos em berço esplêndido. Iniciou sua fala já na agressiva, desfiando um rosário sem fim de preconceitos e outras idiotices em referência a suposta falta de instrução de determinado político nordestino. Um espetáculo deplorável de arrogância, pretensão e outras falhas morais. Enquanto falava lembrei-me de uma frase de Millôr Fernandes: “Minha ignorância não é especializada, atinge várias áreas do conhecimento”. Traduzindo: somos todos burros! Uns mais outros menos, considerada a vastidão do conhecimento humano, não temos qualquer motivo para nos acharmos grande coisa. E, infelizmente para meu adversário, percebi que arrotava iguarias que não tinha por hábito comer. Não resisti.
Conta a história que no ano de 1965, antes de lutar contra Muhammad Ali, Floyd Patterson insistia em chamá-lo Cassius Clay. Ali tinha acabado de trocar o nome e não aceitava mais ser chamado Cassius Clay. Em virtude dessa teimosia de Patterson, durante a luta Ali o massacrou muito mais do que o necessário, enquanto perguntava: Qual é o meu nome? 
Inspirado nessa lendária perversidade parti para o ataque. Deixei que o inimigo de shopping prosseguisse com sua ladainha e lentamente fui conduzindo a conversa para o lado da literatura, terreno que eu sabia estranho a ele. Um pequeno comentário sobre Dom Quixote, outro sobre Crime e Castigo e um último sobre Grande Sertões Veredas. Como eu imaginava, não tinha lido nenhum. Saber relacionar o autor à obra, como fez na tentativa de esquivar-se dos meus golpes, não é nada. Era preciso que tivesse lido. Era preciso conhecer os detalhes da batalha entre Don Quixote e o Cavaleiro da Lua Branca, saber das dores morais de Raskolnikov, de Lisavieta, era preciso saber quem é quem ao ouvir falar de Riobaldo, Diadorim, Tatarana ou Reinaldo. O veneno escorria de minha boca enquanto a doutorência engravatada ficava sem palavra ou resposta a cada comentário “despretensioso” de minha parte. 
Como Muhammad Ali torturei meu Floyd Patterson sem nenhuma piedade. Esmurrei-lhe várias vezes o crânio, o estômago e as costelas, enquanto o sangue lhe escorria pela face frouxa de susto. Percebeu minha maldade. Despediu-se derrotado e mal humorado. Certamente não me dirigirá a palavra até que se refaça do golpe e arme nova emboscada para mim num outro shopping. Estarei pronto.
A vida é realmente bela!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Por Que Matou?


Por Que Matou?
Osias Canuto

Matou porque não bebia,
Matou porque não fumava,
Matou porque não traía,
Matou porque não jogava.

Matou porque viu a mãe,
Matou porque viu a luz,
Matou porque viu o cão,
Matou porque viu a cruz.

Matou porque era o próprio,
Matou porque era o cujo,
Matou porque era o máximo,
Matou porque era tudo.

Matou porque deu manchete,
Matou porque deu polícia,
Matou porque deu comício,
Matou porque deu notícia.

Matou porque não tinha um gosto,
Matou porque não tinha um vício,
Matou porque não tinha amante,
Matou porque não tinha ofício.

Matou porque tinha um ódio,
Matou porque tinha um medo,
Matou porque tinha um fato,
Matou porque tinha um dedo.

Matou porque impossível,
Matou porque impotente,
Matou porque inaudível,
Matou porque infelizmente....

Matou porque a dor é tanta,
Matou porque a dor é surda,
Matou porque a dor não para,
Matou porque a dor não muda.

Matou porque era claro,
Matou porque era nítido,
Matou porque era óbvio,
Matou porque tava escrito.

Matou porque era a hora,
Matou porque era o dia,
Matou porque era o tempo,
Matou porque mataria.

Matou porque não sorria,
Matou porque não sonhava,
Matou porque não mentia,
Matou porque não matava.

Matou porque era fraco,
Matou porque era pouco,
Matou porque tava frio,
E matou...... porque tava morto.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma Vaca Dentro da Kombi

O sujeito tinha uma vaca dentro de uma Kombi. Não era um cão, não era um gato, não era um papagaio, não era um macaco. Parado em um sinal, em plena rodoviária de Brasília, olho para o lado e..... uma vaca. 
Uma vaca dentro de uma Kombi fechada. Uma Kombi fechada. Não era na carroceria, como muitos podem estar imaginando. Seria demasiado óbvio e cansativo se a Kombi tivesse uma carroceria e o animal lá se encontrasse. Não. O improvável tinha o formato de vaca e estava dentro de uma Kombi fechada. Fique atento ao que escrevi: Fechada. Lambia o motorista. Esfreguei os olhos cansados, olhei novamente e ela ainda estava lá. Uma vaca dentro de uma Kombi. 
Lembrei de todos os filmes de Luís Buñuel, de todas as obras de Salvador Dalí. O motorista me olhou sorrindo. Estava pouco se lixando para a morte de Bin Laden, para a reeleição do Obama, para a queda e morte de Kadafi. Como escreveu Drummond: “Nunca me esquecerei desse acontecimento na história de minhas retinas tão fatigadas”. 
Na capital federal, numa monótona manhã de trabalho, um sujeito carregava uma vaca no interior de uma Kombi. 
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Sobre Amores e Canções



Irises - Van Gogh
Agosto tinha chegado com toda sua claridade e secura. Brasília era um imenso deserto moderno e escaldante. Os olhos do rapaz ardiam e a cabeça doía numa enxaqueca que anunciava o fim do mundo. Não era fácil controlar o desespero, exceto por um motivo: ele tinha um plano.
Quando a viu pela primeira vez foi numa galeria de arte, não dormiu. Passou toda uma noite em claro imaginando como faria para vê-la novamente. Lógico que isso era um absurdo, mas, acreditar na razoabilidade do absurdo é o gesto mais banal dentre as muitas loucuras cometidas pelos amantes. E assim se passaram mais dois ou três agostos, com sua secura e dores de cabeça, até que ele entrou, estudante, na Universidade de Brasília. E lá estava na sala de aula, quando ela entrou. Reconheceu-a imediatamente. Era apenas um pouco mais mulher e mais bonita. A partir daí o absurdo tomou conta da situação e, de forma favorável aos desejos do rapaz, ela sentava-se ao seu lado em todas as aulas, e não era por falta de opção, mas sim por vontade própria. Ainda que todas as cadeiras estivessem vazias ela se dirigia à que ficava ao seu lado. Adentrava a sala e o tempo e os objetos paravam para vê-la movimentar-se em busca da cadeira. Após sentar-se a vida retomava seu curso.
Sempre pedia para copiar as anotações que ele fazia no caderno. Estranha rotina, pois tudo o que ele escrevia eram linhas desconexas que não se prestavam ao estudo.  Ele não entendia por qual obscuro motivo ela fazia isso. Mas também não ia perguntar. Estava aí o trunfo e alicerce do plano do rapaz. Escreveu no meio da matéria morta uma declaração de amor. Desse modo, quando ela estivesse copiando o inominável, ia ler o que ele tinha escrito e lhe pouparia os embaraços.
Sua vida, nos últimos meses, era um só esperar pelas terças e quintas, quando tinha aula com ela. O resto do tempo era a solidão entre roupas coloridas, carros, mapas, placas e tudo o mais que existia. Enfim, o dia chegou. Ela pediu o caderno e começou a ler e copiar. Quando terminou, devolveu sem pronunciar uma só palavra. Durante todo o tempo prosseguiu como se nada tivesse acontecido, mas, ao final da aula, colocou a mão sobre o braço do rapaz e fez com que permanecesse sentado até que todos saíssem da sala. Quando todos saíram, ela virou-se para ele e, num sorriso disse: "Por que você esperou tanto para fazer isso?"
Ficaram juntos até de madrugada, dentro do carro, no estacionamento da UnB. Ela ouviu toda a história, desde o primeiro dia, na galeria de arte. Sorria. Parecia mentira. Viram as horas passarem. Viram o noivo dela chegar para buscá-la e sair sozinho. Viram as luzes do Campus se apagarem, e quase viram o dia nascer.
Contra toda a lógica e desejo, por uma trapaça do destino, não ficaram juntos. O que estava escrito no caderno é um segredo que, possivelmente, ela guarda até hoje. Do romance e do absurdo restou a canção.
A vida é realmente bela!
 OLHOS NEGROS

  Todo dia é o mesmo dia
Sempre as mesmas caras encardidas sob o sol
A paisagem já não tem mais atrativos
Ruas, bares que já sei de cor

Todo dia outro alguém que pode tudo
Vai provar por A + B o que é melhor
Os humanos são tão lindos e tão burros
Infelizes, incapazes de ser só

E eu me perco entre frases de efeito
Nunca sei exatamente o que dizer
Mil palavras como flores no meu peito
Prontas pra desabrochar ou morrer

Todo dia essas tardes tão vazias
Que eu jurei não mais viver
Entre roupas coloridas, carros, mapas, placas
Vou seguindo sem você

Todo dia os seus olhos negros
Tão bonitos refletidos no luar
São como as atormentadas cores de Van Gogh
Possuindo todo olhar

E eu me perco em baladas e poemas
Tanta coisa que eu queria te dizer
O poeta mais vazio do planeta
Nunca sei por onde começar a sofrer

Olhos Negros - Osias Canuto

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Tristão e Isolda


Diz a lenda que Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta português, certa vez recebeu de autor desconhecido um soneto. O pretenso artista solicitava a Bocage que revisasse a obra. Bocage, após leitura do referido, considerou-o tão ruim que nada anotou, e para justificar-se emitiu a famosa sentença: “a emenda sairia pior que o soneto”.
Algumas idéias são tão imbecis que estão fadadas ao fracasso logo ao nascer, e jamais deveria ser permitida a hipótese de testá-las.
O amigo estava apaixonado por uma moça chamada Isolda. Inspirado pela história de amor e morte vivida pelo cavaleiro cornualho e pela princesa irlandesa teve ele a brilhante idéia de dizer à moça, por quem andava morto de amores: “ Isolda, você já encontrou seu Tristão? ” Péssimo. Terrível. Alertei-o acerca da burrice intrínseca neste questionamento.
– Não faça isso. É muito arriscado. Se os pais lhe deram o nome Isolda é porque são sabedores e admiradores da obra. Ninguém batiza uma filha com tal alcunha sem que tenha no batismo um mistério literário. Certamente já contaram a ela a história de seu nome, e ela mesma já leu a história. Se tem em torno de vinte anos é provável que já tenha ouvido essa gracinha ao menos umas duzentas vezes.
Percebi que minha advertência tinha sido inútil. Meu amigo tinha o olhar do assassino que não pode evitar o crime, por mais fadado ao fracasso que ele seja. No dia seguinte já tinha cometido o equívoco amoroso.
– E então?
– Ela deu um sorriso amarelo e disse que eu era idiorepetício. Não sei o que significa.
– Também não sei. Talvez nem exista tal palavra e ela a criou em sua homenagem ou detrimento. Mas imagino que seja o nome dado ao sujeito que comete uma idiotice já antes cometida por outros iguais a ele. Eu avisei!
– Eu sei. Vou me matar.
– Não faça isso. Se você se matar estará tentando a salvação pela reprodução parcial do final da obra literária. A emenda sairá pior que o soneto. Ela irá desprezá-lo além túmulo.
Separamo-nos e depois de uns dias encontro novamente o amigo com a mesma cara apaixonada.
– E então?
- Estou apaixonado.
– Como se chama?
– Julieta. Estive pensando em dizer a ela....
– Não diga. Desta vez apenas se mate.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Tyson X Holmes - A História Por Trás da Luta

"Não se preocupe Campeão. Quando eu ficar grande vou pegar ele para você!" Mike Tyson

Cus Damato e Muhammad Ali conversavam ao telefone logo após Ali ser derrotado por Larry Holmes. Mike Tyson, aos 13 anos, ouvia a conversa e chorava pela derrota.

CUS: Como é que você deixa aquele vagabundo bater em você? Ele é um vagabundo, Muhammad, um vagabundo!... Tenho um jovem garoto negro aqui comigo. É um menino, mas vai ser campeão mundial dos pesos-pesados. O nome dele é Mike Tyson. Fala com ele para mim, Muhammad, por favor.

MUHAMMAD ALI: Eu estava doente. Tomei um remédio e isso me deixou fraco, e foi assim que Holmes me venceu. Vou ficar bem, vou voltar e vencer Holmes.

MIKE TYSON: Não se preocupe campeão. Quando eu ficar grande vou pegar ele para você!

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Irresponsável?

Nos dias atuais, considerando diversos fatores, o certo seria ele gritar: Morra, Filho de uma Puta!!!!! Porém, ele gritou: Irresponsável!!! 
Como assim? Irresponsável? Impossível!! Irresponsável não ofende nem beata na saída da missa das sete. Irresponsável é sentença que todo adolescente ouve diariamente dos pais, e não tá nem aí.  O sujeito tinha acabado de levar um banho de água empoçada e suja e gritava ao motorista do ônibus: Irresponsável!!?? 
Fiquei comovido, admirado e decepcionado com o protesto angelical. Eu não seria capaz de tamanha retidão e educação. Alguém, no mundo violento e desrespeitoso em que vivemos, ainda mantinha a classe. 
O próprio motorista do ônibus deve ter ficado desconsertado. Certamente estava à espreita de uma reação violenta. Mas, ao contrário do que imaginava, foi chamado de irresponsável. E, dadas as circunstâncias, irresponsável soava até como elogio. 
Durante o resto do dia fiquei lembrando aquele grito inocente e vi o quanto eu sempre fora grosseiro e mal educado em situações semelhantes, reagindo de forma totalmente destemperada. Decidi então que, se por acaso algum motorista de ônibus me der um banho de lama, reagirei de acordo com o bom exemplo que vi. Já até imaginei minha fala. E será algo mais ou menos assim: Irresponsável...filho de uma puta!!!. 
A vida é realmente bela!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Jandira da Gandaia


Osias Canuto e Jandira
Quando apareceu em minha casa tinha uma das patinhas enrolada num emaranhado de fio, barbante e linha de pesca. Estava muito machucada e foi um trabalho enorme livrá-la do indesejado novelo sem feri-la. Mas a retirada não pode impedir a perda de um dos membros. Machucada, mal comia e mal se acalmava. 
Com o tempo, de tanto cuidar dela, tornou-se minha amiga. Hoje, é companhia certa quando estou ao violão. E por mais que eu a coloque para trás do instrumento, ela retorna para ficar bem em frente à caixa de ressonância, onde o som é mais alto. 
Posso ficar horas tocando e ela permanecerá alí, bem quietinha, ao meu lado. Ouvitne respeitosa, é incapaz de fazer qualquer comentário ou barulho durante a execução das músicas.
Gosto de chamá-la Jandira, por conta de uma canção de João Bosco e Aldir Blanc: "Jandira da gandaia, tu era da minha laia.....!  E, já percebi, ela realmente é da minha laia. Tanto que, certa vez, dormiu me ouvindo cantar Joana Francesa, de Chico Buarque. Mas se for durante o dia, prefere mesmo ouvir música instrumental.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Octávio Brás

Quando o delegado perguntou o motivo pelo qual eu matara tantos homens, não soube responder. Sinceramente, nunca parei para pensar sobre isso. Que graça pode ter a vida para alguém que nunca matou um homem? É preciso cometer um assassinato ao menos uma vez na vida. É a única maneira de ajudar os homens. Já que são covardes para matar-se, é preciso matá-los. Mas depois, pensando melhor, descobri que meu objetivo, não admitido, é aparecer na televisão, nos jornais, nas revistas. Eu me considero um sujeito digno de ser observado e admirado em minha grandeza.
Octávio Brás o meu nome, ou simplesmente OB, como as mulheres gostam de me chamar. Tenho um metro e vinte centímetros de altura. Sou anão, e daí? Foda-se. O que interessa é que sou muito poderoso. Único irmão do maior traficante de drogas do país. Maior também em altura. Tem dois metros e doze centímetros. Como é possível?! Muito simples, o pai dele me pegou para criar quando eu tinha apenas cinco anos. Pegou mesmo, porque ninguém autorizou. O velho estava passeando lá pela favela, que de vez em quando ele gostava de ver pessoalmente como andavam os negócios e, por acaso, tropeçou em mim. Ele não enxergava quase nada, e eu estava ali deitado, meio sem fazer porra nenhuma.
- Que foi isso? - perguntou.
- Sei lá! - o guarda-costas já respondeu me dando um chute na bunda. Soltei um pequeno grito. O velho voltou a indagar:
- É uma criança?
- É uma criança, um marciano, não sei. Some daqui coisa escrôta! - me deu outro chute, dessa vez na cabeça.
Deixaram-me ali e prosseguiram caminho. Mas o inesperado e o sem razão andam siameses. Não chegaram a dar nem dez passos e a laje de uma pequena loja desabou diante deles. O velho levou um susto enorme. Foi preciso que o guarda-costas o segurasse, pois estava prestes a desmaiar. Houve um pequeno tumulto no local, mas ninguém se feriu. Algumas pessoas se acercaram do traficante para saber se ele estava bem. Nada de grave, apenas um susto. O medo é senhor de conexões lógicas sem fundamento. O velho cismou que não morreu graças ao fato de eu estar ali atravessado em seu caminho, pois, não fora isso, e ele estaria passando debaixo da laje no exato momento em que ela desabou. Retrocedeu à minha procura. A sorte era agora minha inseparável. Eu continuava caído no mesmo lugar, ainda um pouco tonto pelo efeito do chute, e também porque eu já era preguiçoso desde essa época.
- De quem é isso? - perguntou o traficante, apontando para mim.
- É da Dona Augusta - as pessoas responderam quase ao mesmo tempo - Não presta para nada!! Tá sempre deitado pelo meio da rua com essa cara de vazio.
- Vou levá-lo comigo, ele me deu sorte. Avisem a essa tal de Augusta que depois eu lhe mando uns presentes.
A partir daí comecei a levar essa vida de rei que tenho hoje. Continuei não fazendo nada, só que não fazia nada deitado em sofás luxuosos, ao invés de ficar pelo chão.
O delegado voltou à carga:
- Você é acusado de ter matado cerca de quarenta pessoas. O que tem a dizer sobre isso?
Miseráveis! Como podem me acusar de ter matado apenas quarenta pessoas. Racistas e preconceituosos. Na certa não computaram os negros e os asiáticos. E os homossexuais, água em toda bica, será que foram esquecidos? E as mulheres, quem garante que algumas delas não estavam por mais um? Preconceito, preconceito. Me odeiam porque sou anão. Como se não bastasse o complexo que sinto por não conseguir mijar sozinho em banheiro público. Tenho que pedir sempre a um dos meus seguranças que me levante para eu alcançar o mictório. Isso é vergonhoso para um sujeito poderoso como eu. É um reduzir o diminuto. Fica tudo que é homem olhando aquela situação medonha. Outro dia não suportei o riso de desprezo de um deles e mandei amarrar e deitar. Mijei na cara do espertalhão.
Mas, voltando às mortes, certa vez dei fim a um grupo de vinte turistas japoneses. Matei os japas após convidá-los para um almoço na favela. Foram todos sorridentes, com suas máquinas fotográficas. Turistas japoneses estão sempre rindo, até no formato dos olhos. E todos sabemos que o riso permanente tem cara de desentendimento ou traição. Rindo do quê? Que porra é essa de andar sempre rindo? Qual motivo pra graça? Morreram todos. Gostam de feijoada. Mas, feijoada e bala de fuzil na barriga descombinam em alimento que leva aos sete palmos de terra.
Também tem os três turistas italianos que encomendei diálogo com o demo, parelha do malfeito e do malfeitor. Filhos da puta. Vieram ao Brasil para um turismo sexual e se foderam na minha pequenina mão. Plantei armadilha. Cinco meninas da favela, entre doze e quinze anos. Cercaram em Copacabana, sentaram no colo, beijinho na boca e o trazer pro morro com promessa de mais. Paguei às meninas cem reais por cada um deles. Preço bom. Mandei currar três dias e matar. Morte vistosa. Pendurados de cabeça para baixo em postes na favela e sangrando por um corte no pescoço.
- Senhor delegado, fazendo uma breve retrospectiva da minha vida posso lhe garantir que matei no mínimo oitenta elementos, que é como vocês gostam de falar. Mas sou modesto, considero o todo de minha obra apenas razoável e creio que posso melhorar, assim que sair daqui.
- Santo Deus!! - exclamou o delegado - Estou diante de um monstro.
- Chega! - gritei - Vamos deixar de falso moralismo. Este é um mundo de merda, o senhor é um delegado de merda, os mortos são uns merdas. A única coisa digna de consideração aqui sou eu. Concordei em permanecer nesta cadeia por três dias, apenas porque sou curioso. Todo mundo sabe que amanhã meu irmão entra aqui distribuindo uns poucos dólares e tudo se transforma. As evidências transformam-se em dúvidas, o moralismo se prostitui, tudo muito simples, só eu sou complexo. Agora vou me retirar que estou cansado dessa conversa idiota. Por favor, só me chame se chegar alguém da imprensa querendo uma entrevista, uma foto, talvez material para uma biografia.
Saí da sala em direção à minha cela e deixei o delegado só, reduzido à sua vida de merda. De passagem dei uma cabeçada nos testículos do carcereiro e mordi sua coxa arrancando um pedaço. Talvez, com a chegada da imprensa, ele conquistasse um instante de celebridade falando sobre a minha agressão. Creio ter percebido em seus olhos, além da dor é óbvio, um brilho de agradecimento pela possibilidade de ser famoso. De qualquer forma, muito menos famoso que eu, Octávio Brás, o anão gigante, o verdadeiro gênio da raça.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Garota Americana na Itália

A foto abaixo leva o título de “Garota Americana na Itália”. Foi feita por Ruth Orkin, considerada ainda hoje um dos grandes nomes da fotografia americana.
Enquanto passeava pelas ruas de Florença, Orkin ficou impressionada com a reação dos italianos à passagem de Ninalee Craig, uma garota americana de 23 anos que viajava só pela Europa.
Fotógrafa e Fotografada não se conheciam até aquele momento. Orkin abordou Ninalee e pediu que passasse novamente entre os homens. O resultado desse encontro inesperado é uma foto maravilhosa, que se tornou famosa em todo o mundo. No link mais abaixo você poderá ver a foto em tamanho gigante.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Baião de Lacan - Guinga - Osias Canuto

A música Baião de Lacan é uma composição do Guinga com letra de Aldir Blanc. Embora tenha se tornado conhecida na voz de Leila Pinheiro na forma de canção, ou seja, com música e letra, o que me atrai realmente é o instrumental. 


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Nosso Cantinho


Onde o grande mestre da sinuca, Walter Brasília, recebe seus amigos.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Amigo do Traficante - II


O rapaz estava diante da porta fechada do badalado Hotel onde ocorria um dos vários eventos paralelos ao Festival de Cinema de Brasília. No dia anterior, algumas pessoas tinham quebrado taças de vinho e jogado dentro da piscina. Isso fez com o que o coquetel, que era para ser aberto ao público, ficasse restrito a quem apresentasse convite. O que era para ser uma tremenda diversão estava se tornando uma enorme frustração. Foi então que o rapaz sentiu uma mão sobre seu ombro: o amigo traficante. Este, sempre agitado, foi logo perguntado: - O que tá fazendo aqui? - Vim para o coquetel que tá acontecendo na piscina do hotel, mas tá fechado ao público. E você? - Vim só entregar uma encomenda. Precisa de convite pra entrar aí? - Precisa. 
O traficante dirigiu-se até a recepção e pediu para falar com um dos apartamentos. Logo, veio um homem ao seu encontro. Entraram juntos no banheiro e fizeram o escambo droga / dinheiro. Na saída, o traficante conversa com o homem enquanto aponta para o rapaz. O homem faz um sinal de positivo com a cabeça e vai diretamente ao local onde estava ocorrendo o coquetel. Passado um tempo, retorna com duas credenciais na mão e fala: - Divirtam-se.  
Em torno da piscina do hotel, bebida e comida à vontade. O rapaz vê o homem da credencial aproximar-se de uma mulher muito bonita e colocar algo em sua bolsa. O rapaz reconhece a atriz, em cartaz no Festival e na novela de horário nobre: - Ela também cheira? - Claro. Essa gente toda cheira. É por isso que o tráfico nunca vai acabar. Atores, diretores, jornalistas, todo mundo dá sua fungada. 
Os dois ficaram um tempo conversando e observando o vai e vem das beldades e celebridades. Passado um tempo o rapaz convida o amigo para verificarem onde é o restaurante. O traficante responde: - Vai lá. Vou ficar por aqui e dar umas voltas. Tô gostando dessa coisa toda. Depois se despedem e o rapaz se dirige até o elevador. Assim que põe o pé para dentro, alguém entra logo atrás. Era a atriz. Linda e simpática. Após um pequeno instante de silêncio constrangedor ela fala: - Tudo bem? - Tudo. - Você estava no coquetel do festival? - Tava. Agora tô subindo para o restaurante, mas não sei onde é, nem se vou conseguir entrar. Ela sorri e diz: - Eu sei. Quer que eu te leve lá? - Quero. - Mas a gente pode passar no meu quarto antes? Tenho que pegar uma coisa. - Claro. - Como é seu nome? - Fulano. O seu, é lógico, você não precisa dizer. E sorri encabulado. 
Chegando à porta do quarto a moça vai logo abrindo, e encontra a amiga ainda se trocando. Entra sem cerimônia e fala para a amiga ficar tranqüila. - Esse é fulano. Conheci no elevador. Ele também vai para o jantar. Você tem convite? - Não. Vou tentar entrar. - Fique tranqüilo. Nós te colocamos para dentro. 
O rapaz começa a acreditar que é um sujeito de sorte. Há pouco não sabia nem se chegaria ao coquetel na piscina e, agora, lá estava ele no quarto de uma bela e famosa atriz e, ainda por cima, ela estava com uma amiga não menos bela e famosa. A atriz do elevador abre uma garrafa de whisky e os três começam a beber. Sem gelo. Conversam sobre o festival e sobre os filmes que assistiram e os que não assistiram. Horas depois, e com a garrafa já vazia, a atriz pega na bolsa o pacote que o traficante tinha negociado no banheiro. Olha para o rapaz e pergunta: - Quer? Surpreso, ele responde: - Eu? Tenho cara? - Não sei. É preciso ter cara? Eu tenho? Sob o olhar atônito do rapaz, ela tira a blusa da amiga e ajeita uma trilha do pó branco entre seus seios. Depois, cheira metade da carreira. Olha para o rapaz e, com um sorriso, desafia: - E agora? Você quer? 
Na televisão, no mesmo instante, a novela mostra a bela e jovem atriz no papel de uma inocente menina rica.  
Quando os três saíram do quarto para o jantar, o relógio já marcava onze horas. Na mesa, entre as celebridades, um jovem político, famoso pelas baladas e pela proximidade com o pó branco. A atriz sorri da cara de assustado do rapaz. De longe, ele vê o amigo traficante entrando no restaurante ao lado de um diretor de cinema que acabara de conhecer.  O rapaz olha novamente para a atriz, olha para o amigo, e lembra-se da frase deste último: “É tudo hipocrisia. Se você perguntar, todo mundo quer acabar com o tráfico, mas, a droga mesmo, essa, ninguém quer que acabe. Essa gente não saberia viver sem ela". A festa estava só começando. 
A vida é realmente bela!